Nascido e criado no Porto, sob o regime autoritário de um advogado antissalazarista, homem respeitado, figura típica da cidade do Porto, assim era descrito Joaquim Bento Ribeiro de Mello, pai da personagem principal deste memorando.
Porque trata-se disso mesmo, recordar tempos e memórias apagadas por uma democracia pouco democrática.
Escrevo sobre Fernando Ribeiro de Mello…
Diria que desde novo mostrou-se irreverente, rebelde e até mesmo excêntrico, mas foi somente com 18 anos que bateu de frente com a sua figura paterna e decidiu abandonar o ninho sem um tusto no bolso.
Estamos no ano de 1960 "e poucos", em plena ditadura, Fernando está sozinho e sem ter para onde ir, sem dinheiro e com um 2º ano da escola industrial…
Agora vai a diferença entre aquilo o que tu poderias ter feito no lugar dele, e o que ele fez.
Fernando, que não é de encostar-se à espera que faça sol, desloca-se ao Instituto de Medicina Legal do Porto e ali vende o próprio esqueleto por dois contos e quinhentos e de seguida segue para Aveiro onde inscreve-se na Força Aérea Portuguesa na base de São Jacinto.
Já na base, entra num tête à tête com um oficial que termina com o Fernando encarcerado.
Seria de esperar uma má experiência para o rapaz, mas mais uma vez dá a volta por cima e este acontecimento acaba por traduzir-se num ponto de viragem na sua vida.
Ali encarcerado, Fernando começou a devorar os livros que o padre da freguesia levava durante o dia, e à noite, com a cumplicidade do carcereiro que abria-lhe a porta, ia dar umas voltas.
No final era uma maravilha, teto, cama, comida e roupa lavada, tudo isto enquanto se instruía.
Mas certo dia, como seria de prever, a pena chega ao fim e Fernando finalmente sairá em liberdade, ou talvez não! Não era isso que o Fernando queria, ainda faltava ler tanto livro… Então recusou-se a sair, mas não teria alternativa, a prisão não é um hotel mas sim um lugar para quem comete infrações e delitos, alguém disse, e disse muito bem…
O Fernando não tem mais nada, pede 5 minutos, vai ao encontro do primeiro oficial que encontra, pede desculpas e enfia-lhe dois murros.
Está feito, volta a ser preso, desta vez com pena agravada, o que deu-lhe mais do que tempo para colocar a leitura em dia.
Passado este episódio e já num novo turno da sua vida, Fernando muda-se para Lisboa onde se apresenta como declamador de poesia e editor, onde cria amizades e faz contactos com pessoas já estabelecidas e influentes.
Entre 1968 e 1976 já é considerado um dos melhores editores do país, tendo já publicado autores como Almada Negreiros, Mário de Sá Carneiro, Natália Correia entre outros.
Funda a editora Afrodite, ousada, erótica, provocadora, muito à frente do tempo, a única editora do país que teve todos os livros censurados, levando Fernando a ser perseguido, julgado e condenado por duas vezes, apenas por ser destemido, por ser do contra.
Em Dezembro de 1971 realiza a “conferência de imprensa líquida”.
Com a ajuda do seu amigo Nuno Amorim, arquiteto e ilustrador de grande parte da sua obra, decoram e enchem um tanque com água e espuma, preparam o local a rigor, pintam 2 travestis e 1 homem vestido de diabo e de seguida convocam os jornalistas e a elite.
Mergulhado no tanque, nu e de cigarro na mão, Fernando dá início à apresentação de 4 obras entre as quais uma para adultos.
Palavras do próprio:
“Em determinados contextos, para não se ser cilindrado, para se poder intervir, ou se é entidade ou se é firma, ou se é louco. Como não sou entidade nem firma...”
Após o 25 de Abril a sua carreira entrou em decadência, numa altura em que desafiar a moral e ser-se corajoso já não tinha o mesmo sabor.
Em 1981 Fernando processa o Estado por ter levado a Afrodite à falência através das nacionalizações, em 2002 ganha a causa, mas já teriam passados 10 anos desde o seu falecimento!
Esta é a história de alguém que faz parte de uma história esquecida.
