"Trabalho desde que nasci e nunca morri", "Melhor trabalhando do que roubando", "Prefiro meu filho no trabalho do que na rua", "O trabalho dignifica e constrói o caráter", "O trabalho preparara para a vida"... e por aí vai. São muitas e muitas justificativas que já ouvi daqueles que defendem o trabalho infantil.
Pessoalmente eu acho que não cabe ao Estado ou a qualquer outra pessoa interferir nas atividades laborais de uma família ou na forma que os responsáveis tentam ensinar tais atividades às suas crianças e adolescentes. Ou ainda na vontade própria que muitas crianças e jovens manifestam desde cedo, em exercer alguma atividade econômica. Mais uma vez essa é a minha visão de dentro da bolha social em que eu vivo. Estourando a minha bolha e olhando a realidade de outras pessoas, a coisa complica.
A coisa complica quando os próprios pais e/ou responsáveis se aproveitam da vulnerabilidade da criança ou do adolescente e os submetem a situações degradantes, insalubres e/ou de risco, como explanei melhor neste post.
A coisa complica mais ainda neste contexto. Essa é um imagem do jogo Assassin´s Creed Syndicate, ambientado na Inglaterra da Revolução Industrial, que foi o berço histórico da exploração do trabalho infantil por terceiros. Até então era mais comum que as crianças trabalhassem ajudando os pais na agricultura e manufaturas familiares diversas, aprendendo sobre os ofícios e os negócios da família. A partir da revolução elas passaram a ter um "patrão", um oportunista que procurava o menor custo às custas da coerção, dominação e exploração de um público com baixa autonomia e capacidade de reivindicação.
Até hoje a maior parte da mão de obra infantil é explorada por terceiros, dentro de parâmetros internacionais denominados piores formas de trabalho infantil .
Gráfico da unidade especializada de assistência social na qual trabalho, mostrando em que tipo de atividades se encontram as crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil acompanhados pela equipe. E não se trata apenas de uma questão de descriminalização das drogas, até porque cigarro, álcool, insumos químicos, medicamentos entre outros, também não são produtos passíveis de serem vendidos por crianças, visto que colocam em risco sua saúde e integridade física. É um problema muito maior do que simplesmente o combate às drogas. Estamos falando de pessoas em pleno desenvolvimento psico-fisico-social, que a pretexto de uma pretensa liberdade civil a qualquer custo, são coagidas por segundos e terceiros a colocar sua liberdade, dignidade e vida em risco em troca de uns trocos, muitas vezes também extorquidos das mesmas.
E mesmo quando falamos do trabalho em suas formas mais habituais e aparentemente inofensivas, não podemos ignorar as estatísticas, que apontam que o trabalhador infantil de hoje se torna o trabalhador escravo do futuro na grande maioria das vezes, ou então no trabalhador que aceita sem resistência o trabalho precarizado e desprotegido.
E aos que dizem que o trabalho precoce "prepara para a vida", eu digo que é mentira. Aqueles que iniciam sua vida laboral precocemente, NA GRANDE MAIORIA das vezes se tornam a mão de obra menos qualificada do mercado e tem mais dificuldade de se desvencilhar dos subempregos. Enquanto outros tiveram tempo de estudar, se qualificar e/ou preparar, o trabalhador infantil geralmente passa a vida "sem sair do lugar", e NÃO "mais preparado para a vida".
E a quem diz que o trabalho precoce "dignifica e constrói o caráter", eu convido a assistir esse clipe do Radiohead e me dizer o que foi dignificado e construído nessa história de vida (da direita), além do patrimônio alheio.
Que todos tenhamos o direito de sermos livres e buscarmos nossa felicidade conforme nossa individualidade soberana, inclusive aqueles que dependem de nós para isso. Aqueles a quem muitos de nós temos coagido de forma perversa sob o pretexto de que somos livres para tal.
Possíveis caminhos para o enfrentamento: