Finalmente, ao fim da tarde, soprava desde algum lugar mais ao sul que aqui, brisas gélidas que já eram esperadas há semanas. Contrastando com o ar ainda um pouco quente deixado pelo verão, aquele sopro gelado, talvez vindo dos gelos misteriosos da Antártida, varria a alma dos despreparados com calafrios. No cinza da tarde que sumia, reflexos rosados brilhavam esparsos entre a vegetação escura dos morros, produzidos pelo sol que se ocultava atrás de distantes montanhas.
Como esperamos pelo frio! Quando ele chega a nós, a alma se torna mais quente e os momentos parecem mais significativos. O chimarrão tem mais sabor e a cuia que o abriga acolhe-nos melhor. Os pinhões na chapa completam essa imagem que resta do nosso imaginário coletivo de uma aconchegante e simples casinha de madeira esquentada pelo forno a lenha. Assim, sem querer, regressamos à memória partilhada que carregamos tão quietamente, pois nosso ser tradicional nunca foi propriamente exibido nos livros e nas pinturas, e mesmo na cultura geral ele foi exibido pobremente. O mundo tradicional de um paranaense, de boa parte dos catarinenses e rio-grandenses busca energias de imagens envelhecidas dos tempos dos avós – nonos e nonas, opas e omas, didos e babas.
Todos nós carregamos um pouco dessas lembranças, mesmo que essas casas e esses ambientes estejam sumindo. Até a antiga maneira de falar vem sumindo diante do avanço de um país unificado pela mídia antes televisiva e agora virtual. Como grande nostálgico e amante dos velhos modos de se viver a vida, a tudo isso eu respondo com um lamento. Porém, na parte fria do ano, nela sim, sentia que podia revisitar esses sentimentos e também percebia que todos, mesmo sem querer, faziam o mesmo. E como não sentir uma nostalgia mais do que forte ao lembrar-se de rodas de chimarrão ao pé do forno a lenha com a chaleira quente e o pinhão na chapa enquanto os presentes, naquele frio, contam causos e coisas de outros tempos ainda mais antigos?
Então o frio não trazia apenas a necessidade de tirar a japona do armário ou de providenciar mais cobertas para o sono. O frio traz um recolhimento a nós mesmos e uma revisitação do que nos reúne como povo. A identidade sulista é, de certa maneira, reunida em torno de elementos que acompanham o frio. Da mesma forma, costumamos ver todo aquele orgulho dos antepassados que vinham de regiões muito mais frias, como se também revisitássemos eles, como se estivéssemos mais próximos de nossa raiz ainda mais antiga. São tantos fatores! Sem que o povo note, silenciosamente o frio reúne todos eles juntos uns dos outros, fazendo com que se aqueçam e tragam aconchego à nossa fugidia alma.
Quando escrevo sobre tais coisas, desdobro conceitos. Pego aquela brisa que soprou no fim de tarde, coloco-a ao lado da imagem dos raios rosados sobre o morro e dali simplesmente brotam todos esses pensamentos. Eles estavam já na sensação e já na imagem, quietos... Quantas coisas uma simples brisa podem trazer quando sopra sobre a amplificação poética das linhas! Pois garanto que nada foi pensado depois, a semente de tudo já estava no movimento leve da brisa e na visão da querência que habito.
Assim, iniciava-se, um pouco tarde no ano, aquele processo que se repete a cada ciclo, o de interiorização e de recolhimento. Logo, voltava a mim mesmo e às coisas que habito, sabendo que, mesmo quietamente, seria o mesmo para muitas almas dessas terras.
Um bom outono e inverno a todos!
A primeira foto foi tirada por mim com uma câmera analógica há alguns anos. A segunda também foi tirada por mim, mas com uma câmera digital, numa caminhada lá por 2010. Ambas foram tiradas em minha cidade.