“Indulgência para a Maldade ou a Arte do Perdão”
Todo mundo busca um Deus dentro de si, não é mesmo? Mas tem pacto com o demônio! Atire a primeira pedra quem nunca quis dar uma porrada no motorista de ônibus que não parou quando você fez sinal? Quem nunca quis dar um tiro no assaltante que levou o seu relógio ou sua carteira? Quem nunca quis jogar uma bomba no congresso nacional para acabar com essa roubalheira que não para mais? Quem nunca sentiu ódio mortal dos traficantes que nos fazem reféns em nossas próprias casas? Quem nunca quis? É, pessoal, eu já quis... e você também já.
Sim, uma vez na vida, umazinha só, já passou um pensamentozinho, daqueles bem pequeninos, em algum momento de sua existência, quando um fato horrível ocorreu com você ou com alguém próximo a você. Eu sei que já aconteceu e, por isso, você é igual a todo mundo. “Ah, mas isso foi quando eu era criança.” Pior ainda, crianças são consideradas puras, e se você pensou assim, já tem o embrião da “humanidade” em você. Não tenha medo, e não fique chateado com essa situação. Essa é a belíssima natureza humana e quando eu digo “belíssima”, não emprego qualquer tom de cinismo. Minha intenção é chamar a sua atenção para um item: somos humanos.
Sim, sim, somos humanos! Se fôssemos santos, não teríamos esses pensamentos! Será mesmo? (Quando Jesus entrou feito um doido na sinagoga quebrando tudo, porque estavam usando a casa do Pai dele como uma tenda da 25 de Março, o tempo fechou!) Percebem o que eu quero dizer? Jesus vivenciava o que era ser “humano”, e nem ele estava livre dos dissabores da vida na Terra. Bom, é nisso que quero acreditar. Nossa humanidade nos permite sentir de forma totalmente diferente, ou estranha, os princípios de boa conduta e respeito. Afinal, há no vocabulário de qualquer língua a palavra “perdão”. Essa é a indulgência delegada pelos humanos, ou seja, nós mesmos, para podermos fazer tudo e sairmos impunes. “Sim, mas eu pedi desculpas!” Quantas vezes você já ouviu isso na sua vida?
O pedido de desculpas virou algo totalmente banal para 84,9% da população mundial. Os outros 15,1% ou não conhecem o vocábulo, porque não fazem nada de errado e, assim, não precisam usá-lo, ou porque usam para delitos realmente pequenos (prefiro pensar que seja isso). Mas o que eu tenho visto é: “Você matou meu filho, seu desgraçado”, diz a mãe para alguém, e esse alguém responde, “mas eu já pedi desculpas, foi sem querer”. É a isso que me refiro! Está chegando a esse ponto!
Na oração de São Francisco há uma passagem que diz “...é perdoando que se é perdoado...”. No Pai Nosso há uma passagem que diz “...assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido...”. Será que houve uma banalização da palavra perdão, ou as pessoas não sabem o que significa o verdadeiro perdão? Ou será que elas pensam que, pedindo perdão, tudo volta ao normal como em um conto de fadas? Eu citei orações porque, nos momentos de crise ou de erro, todo mundo sai citando tudo o que é religioso só para ser perdoado. Já perceberam isso? Se alguém faz algo de errado: “ah, tenha piedade; é perdoando que se é perdoado, sabia?” E por aí vai. Enfim, é sempre a desculpa do meliante, e o “meliado” (se é que eu posso usar esse termo), é colocado contra a parede e, com o sentimento de culpa (que não deveria ser dele), aceita as desculpas (ou revida). Enfim, valores bem estranhos o do ser humano atual, não é?
Bom, creio que, enquanto não soubermos o que significa a palavra “arrependimento” em toda sua profundidade, o “perdão” será confundido como “indulgência para maldade”, até a chegada de um novo cristo (uma pessoa ungida, não confundir com Jesus, que foi um dos vários cristos que caminhou pela Terra).
Nota: Esse texto fará parte de meu conjunto de crônicas, com a ideia de publicá-lo no jornal de Petrópolis chamado Tribuna de Petrópolis. Este é o original e, caso seja aceito, será alterado de acordo com a equipe de edição.
⸶⸭⸰⸭⸰⸭⸰⸭⸰⸭⸰⸭⸰⸭⸰⸭⸰⸭⸰⸭⸰⸭⸰⸙⸭⸰⸭⸰⸭⸰⸭⸰⸭⸰⸭⸰⸭⸰⸭⸰⸭⸰⸭⸰⸭⸰⸷
Muito obrigado por sua visita, carinho na leitura e comentários!
Abraços, !
Publicação de 16 de julho de 2017.