Se pesquisarem no Google por “geriatria” encontram imagens de idosos felizes e satisfeitos com quem cuida deles e vice-versa. A realidade nem sempre é essa. É muito difícil para um idoso sair da sua casa e ir para um lar onde habitam umas dezenas de pessoas estranhas. Há sempre uma revolta muito grande contra os filhos ou cônjuges quem se veem obrigados a leva-los para o lar por não terem condições em casa ou tempo para cuidar deles. A adaptação, normalmente, demora umas semanas. Cada casa tem as suas regras e cada pessoa tem a sua própria forma de viver e um lar é uma casa com regras muito específicas e que incluem todos. Os horários são muito rigorosos. Por um lado, para que o idoso possa criar uma rotina e por outro para nós, colaboradoras, podermos ter uma linha certa de trabalho, linha essa que é muito difícil manter no dia-a-dia. Quando se trabalha com máquinas programadas para fazer um determinado trabalho é fácil definir horários e tempo de trabalho. Com pessoas o caso muda de figura. Não há um dia igual ao outro. Por vezes até parece que o dia está a correr bem até acontecer um imprevisto que atrasa tudo. Acreditem que 5 minutos conseguem ser preciosos para um dia de trabalho correr bem.
No papel de cuidadora, a minha função é apoia-los a fazer o que eles têm dificuldade e, no caso de eles não conseguirem, tenho que fazer por eles. Tenho o dever de os incentivar a serem autónomos mas no estado em que eles chegam ao lar já não têm autonomia para quase nada. O ser humano volta a ser criança a partir de determinada idade. E se for parar à cama precisa que lhe deem comida, água, que o virem de 2 em 2 horas, que lhe mudem a fralda e deem banho. A minha maneira de olhar para a velhice não é muito positiva. Depende de como se chegar lá.
Como devem imaginar, é preciso gostar do que se faz, se não, não se consegue fazer metade do trabalho. Eles precisam de atenção, precisam criar confiança com quem cuida deles, precisam rir. O nosso trabalho também cai muito na parte psicológica deles.
Como em todo lado, há pessoas e pessoas e nós temos que lidar com todos. Antes de serem velhos, foram novos e a personalidade não altera com o passar dos anos. Em boa parte dos casos, a velhice faz sobressair o lado negro da personalidade das pessoas. Há de tudo. Pessoas autoritárias, mal-educadas que nos tratam mal e há quem nos queira bater por tudo e por nada. Mas também há idosos que olham para nós como se fossemos família e que reconhecem a sorte que têm por terem quem olhe por eles.
Fisicamente, é desgastante. Temos que ter força. É preciso levantá-los, muda-los de uma cadeira para a outra, deitá-los. Há aqueles que ajudam mas há os que não ajudam nada e os que fazem força para baixo quando os queremos levantar.
O horário de trabalho duma casa destas é interminável, 24h por dia, 7 dias por semana. Trabalhamos de manha, de tarde ou de noite, durante a semana, aos fins-de-semana e feriados. Não é mau trabalhar por turnos mas não é fácil trabalhar de noite. Não há vidas nem trabalhos perfeitos e, como eu costumo dizer, os trabalhos mais importantes não conhecem horas nem dias, é tudo igual.
A época natalícia, para mim é a mais difícil. Mas os nossos idosos também precisam de cuidados no Natal!
Provavelmente a maioria de vocês, leitores, não vão chegar ao fim do texto, mas a quem chegar agradeço :)
Beta