Para quem não está familiarizado com as ideias filosóficas por trás do conceito de TAZ vou dar uma breve explicação, já corrigindo as próprias confusões que uma gama de leitores fez ao acessar o conteúdo pela primeira vez, baseando-me nos editoriais do próprio Hakim Bey.
Zona Autônoma Temporária é um conceito ou manifesto baseado também no método de organização social utilizado pelos piratas do século 17. Disse também, por que naturalmente não é apenas isso. Hakim Bey desenvolveu o conceito baseando-se em inúmeras situações, mescladas ao intenso perfil do anarco-liberalismo. Para facilitar a compreensão: Zona Autônoma Temporária é qualquer local que adquire uma importância, temporariamente. Um grupo utiliza-se do ambiente para desenvolver um livre mercado, uma reunião, uma festa, seja o evento que for, ou mesmo uma moradia. Mas esse local tem prazo de validade, em pouco tempo (o tempo será decidido conforme a experiência dos envolvidos) tudo é guardado, desmonta-se o acampamento e segue-se para um novo ponto. Da forma como viviam os piratas, os ciganos, diferente do MST que não quer largar o acampamento. Muitas pessoas entenderam o livro como um manifesto incitando uma revolução com o modelo TAZ, o que não era verdade, era apenas a proposta para uma nova ferramenta para a sociedade.
O livro aprofunda-se muito mais nisso, estou apenas pincelando o conceito, certamente quem conhece o material sabe que vai muito além disso.
Não lembro se o próprio Bey chegou a considerar que seu conceito tinha tudo a ver com o universo virtual principalmente utilizado pelos hackers e a deep web e que logo mais, veríamos o conceito de um mundo sem um ponto fixo, uma rede descentralizada dominar completamente o protocolo para o futuro da internet. Mas acredito que em meio a todo aquele manifesto Cypherpunk, certamente Bey teve sua importância. Me pergunto se ele está hoje em dia infiltrado nessa descentralização, aqui no Steemit pelo jeito não, infelizmente.
Ok, muito superficial essa análise, por que afinal de contas, podemos livres formar nosso grupo, nosso steem market br, não dependemos de governo, fazemos nossas regras internas (com tanto que estas não afetem as regras dos grandões ali de cima). Mas no final das contas, a descentralização no nível que eu conheci até agora (sou tão ingênuo ainda nesse mundo da blockchain, nada sei) não é algo completamente real. Nós ainda dependemos de setores maiores para formar nossa reputação, nós ainda estamos correndo atrás das baleias, para ver se pegamos rabeira nas barbatanas dela, aceleramos nosso crescimento.
O que muda de fato desse mundo para o mundo de concreto quente, ônibus, poluição de carro e batedor de carteira é que aqui podemos experimentar algo considerado "errado" lá fora, o livre mercado. A liberdade prazerosa de vender o que eu quiser por cryptomoedas (se alguém quiser comprar) e pronto, ninguém tem nada com isso. Por enquanto, pelo menos. Isso gera uma ansiedade, uma sensação de que em algum momento vai dar cagada, alguém vai vir e brigar, igual quando você quebrava as regras quando criança e sabia que não ia durar muito. Mas espero mesmo que não seja assim. Por que estamos lidando com outra era, outro nível de regras. E acho que temos sorte de estar brincando com moedas enquanto ainda estamos nessa área cinza, igual ao cultivo de psylocibe cubensis, que contém psilocibina (ela é ilegal, mas o cogumelo que contém ela não é), igual tantas outras coisas.
Acabar não vai! Certamente não vai. O que eu penso, pensando em um mal cenário, seria que talvez daqui um tempo teremos que levar bem mais a sério as propostas de Hakim Bey e tantos outros ativistas virtuais, levar a sério a proteção virtual, a criptografia, criar uma nova camada na cebola, para não ter que dar explicações ao povo do concreto e do sol ardido.
Obrigado por ler! Aguardo sua opinião!