Quando éramos modernos manifestávamos os nossos desejos singulares, lutávamos pela liberdade e igualdade, a fraternidade era, por vezes, um equívoco, enquanto se manifestava um individualismo autónomo amplificava-se a ruptura com as tradições mais conservadoras. Na intimidade do espelho descobria-se a estima por si, o desejo de ser e sair com identidade clara. Da religiosidade íntima à profanação do universo privado, o espaço social é despudoradamente o seu prolongamento. Há uma falsa liberdade do vazio, a ausência da perspectiva, da crítica onde ética e moral se confundem no exercício de um pacifismo arrepiante perante a modelagem de poderes obscuros. Por outras palavras, o desinteresse pelo outro num processo agnóstico pela não intervenção social como se a passagem pelo túnel sem luz das ditaduras desembocasse inadvertidamente numa paisagem idílica, de múltiplos acessos, como se passasse, metaforicamente, de um inverno gelado e miserável à primavera do consumo de massas, à entrada imediata do que antes era referenciado como espaço do sonho impossível. O hedonismo individualista como «ideologia» de uma pequena burguesia ascendente cujos troféus, junto da vizinhança, eram as representações fotográficas nas paradisíacas praias das Caraíbas onde se exibia a insustentável leveza da felicidade. Da teatralidade social ao endividamento assistido e estimulado a paisagem era tão só o campo minado dos agiotas e dos poderes sem escrúpulos. A excessiva informação de ofertas desestrutura uma sociedade que acaba de descobrir que o desejo impensável está mesmo ali na montra do real. A falta de consciência ideológica e a instabilidade social surgem como o grande paradoxo do novo escravo. De uma aparente emancipação à crispação de quem se viu extorquido, usurpado, espoliado da prometida vida em festa. Da emergência de um futuro à porta de casa à resposta desenfreada dos movimentos anacrónicos de obscuros poderes ao leme de uma frota ocidental à beira, ela própria, de ser engolida por um desconhecido buraco negro para o qual se dirige inconscientemente. O medo e as ameaças em nome de uma falsa e farsante estabilidade, os ácidos da inquietação e do temor, a ausência de futuro e o presente como um longo túnel sem saída estão a aniquilar o sul do ocidente num campo de concentração mortífero tão de acordo com a estética destrutiva do norte. E esta montra do gabinete de curiosidades pode estar a pouco tempo de fazer implodir a crença de um mundo melhor.
Luís Filipe Sarmento, Gabinete de Curiosidades, 2017
Foto: José Lorvão