Realidade das Horas Imóveis
Notei que a cortina mexia-se. Não seria algo assustador, tão amedrontador, se não estivesse dormindo. Acordei com esse susto de vidro quebrando-se, cacos espalhando-se pelo chão, alvoroço em mim, taquicardia... Pronto, estava alerta! Olhei ao redor, sem sair da cama, buscando pelos cacos esparramados no chão; nada encontrei. A cortina mexeu-se outra vez e eu voltei à realidade. Mas, dentro de mim, eu continuava ouvindo o som do vidro partindo-se; cacos voando por todo lado, contudo a cortina trazia-me à vida presente, aos fatos. Levantei-me a verificar esses "panos esvoaçantes"; tudo normal. Havia uma certa culpa do vento, pois a pequena fresta da janela deixava passar essa brisa meio boba, que brincava com o voil que protegia o blackout. Abri a cortina, fechei a janela, o sopro da rua parou e meus olhos petrificaram-se: eu vi as rachaduras na janela. Levantei a mão e toquei o vidro resfriado pela madrugada. Ilusão! Não foi o vidro que se partira, mas meu rosto que se estilhaçara ao sabor dessa dor infernal que me come com o tempo. Finalmente, encontrei os cacos em minha humanidade nua; ecoavam nessas câmaras que chamamos de alma ou espírito, não sei bem. Como colá-los? Sem qualquer resposta aparente, voltei anestesiado para a cama e dormi... com os olhos abertos, observando cegamente o relógio, na cabeceira da cama, e suas horas de pedra.
N. do E.: Esta é uma obra ficcional original, portanto qualquer semelhança com fatos ou situações da vida cotidiana será considerada mera coincidência. A obra ficcional traz em si o poder de despertar no outro sentimentos que podem ajudá-lo a entender ou a bloquear de vez alguma situação adormecida ou, muito pelo contrário, vivenciada ao extremo no momento da leitura. Ou, simplesmente, traz algum prazer na leitura. As palavras estão no texto como um presente. Use-as; faça-as suas!
Agradeço pelo tempo que me oferecem com a leitura. O tempo dispensado a um ser é o melhor presente que se pode oferecer a outro ser. Sonhem todos os dias e sejam felizes, vibrando em harmonia e esperança, sempre no caminho do meio. É o que desejo a todo momento a cada ser vivente!
Abraços,
Publicação de 24 de janeiro de 2018

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