No parque tecnológico do gabinete de curiosidades, o ecrã hipermoderno é exuberante na sua informação premeditada da ignorância. No paradoxo do presente há dois passados em confronto: o que se desconhece e o que reacionariamente se exalta. O futuro-alvo é um domínio do efémero: o que existe já não existe. Nesta liturgia, celebra-se o presente e a identidade como expressão de uma vontade aparentemente própria e liberta de anátemas; valoriza-se o que é novo numa representação «vintage», a dessacralização do acesso, a afirmação do indivíduo que se perde em si e ignora, por desconhecimento imposto, o valor solidário da vida. Como fogo no subsolo das consciências, propaga-se o que é, mas já foi, num exercício hiper-rápido de sedução, num jogo de diferenciações, na apoteose do efémero. Brilha na montra o falso diamante da libertação das tradições enquanto há um regresso anacrónico ao tradicional, ao obsoleto, como estojo de uma aparência social fora do real. Neste jogo de espelhos subvertidos na fábrica, há quem afirme a sua autonomia quanto mais dependente se torna da arenosa novidade que lhe foge por entre os dedos. Na sociedade dos magros, os obesos ganham peso nesta essência individualista do paradoxo. A ignorância e a falácia surgem como elementos estruturantes da cultura do engano, da promoção da miséria, do desconhecimento de si. O vagabundo que outrora conduzia um veículo de alta gama dorme hoje na rua sob o toldo de uma reconhecida marca que a expressão da mentira exibe como alvo legítimo para uma diferenciação individualista do ser e do seu desinteresse e cegueira perante quem passa e não existe. Resultado dos mercados que fabricam diferenças, o homem é uma curiosidade de repetições semióticas. Uma novidade do passado.
Luís Filipe Sarmento, Gabinete de Curiosidades, 2017
Foto: José Lorvão
capa da edição portuguesa
Foto: José Lorvão