English Version
I was always a curious child. I remember times when I would spend hours observing soap bubbles and trying to identify patterns. I noticed that while the bubbles were colorful, they remained intact until dark spots appeared just before they burst. This earned me nicknames among my family, like Gyro Gearloose (a Disney cartoon character known for his inventions) and Mad Scientist. To me, it was just curiosity.
Once, I discovered that stones, despite their ugly appearance on the outside, could be very beautiful when broken, revealing shine, designs, and colors that were previously hidden. That's how I started seeing stones in a different light and began collecting them. It was a very beautiful collection, but it also gave me a scar on my forehead that I still have today, acquired in an attempt to break a stone that ricocheted and hit me squarely, resulting in a few stitches in the hospital.
Later, I discovered maps and became fascinated by the possibility of traveling on unknown roads and getting to know other cities, which led to some disappearances that worried my family because I would take hours to return home trying to find new routes. Based on these characteristics, it was already clear that something was different about me. But what was it? A teacher commented to my mother that I was very studious, but also easily distracted and would play with my school supplies during class.
It also became evident that my performance depended on my interest; if something caught my attention, I could delve into the subject far beyond what was necessary. That's how I ended up reading Hitler's biography, written by Joachim Fest, which has a total of 1,056 pages. And that's how a teacher called me in for a talk, concerned about a Nazi flag drawn on the back of a test. It wasn't about identifying with the ideology of a psychopath like Hitler, but about an unusual interest in stories that caught my attention.
Another evident thing was the lack of awareness that some interests could lead to judgments and even distrust regarding my behavior. I didn't fit into simply reproducing knowledge or following established patterns. Everything was questionable. And that can become a problem.
I didn't fit the professional mold, so much so that I went to several interviews and rarely received any feedback regarding my performance or the possibility of being hired. Therefore, I decided to take civil service exams, a way to force them to hire me. After all, I always had an aptitude for exam logic. What I didn't understand was human logic itself.
However, it also became clear that, even so, I would hardly be content with a common and uncreative job. That's how I resigned from all the positions I held that didn't last more than a year or two. My ability to solve theoretical problems was of little use if I couldn't handle the daily work routine in practice.
I created my own individual company and acquired some clients offering digital marketing, being one of the first professionals to work in the field. It lasted quite a while, five and a half years. Today, I know what made me stay so long, by my standards, tied to the same project. I created my own work, I didn't follow a manual, there were no rules or paths to follow yet.
I tried no less than four different university degrees only to discover that I didn't fit into the academic world or pre-established professions either. Only then did I realize that I was living in such a different way that I was in conflict with myself.
I tried to fit in, but I couldn't at all. Finally, I sought help from a psychology professional, trying to understand what was happening to me. I suspect she didn't figure it out because even today I'm still trying to understand my behavior. Some things might even be family traumas, but it couldn't be just that.
It was then that, talking to one of the few colleagues I felt comfortable talking to, he told me he was being treated for attention deficit disorder. I identified with him a lot, and his diagnosis intrigued me. Could that be it?
I researched and discovered that there was a support group for patients diagnosed with ADHD and their families. At the first meeting, I wrote down all the characteristics they described in everyday situations. Absolutely everything I felt was being described there. It seemed like the story of my life. I took some tests to determine if this was truly my condition, and the result was a very high score. Similar to my scores on all the tests I took. In theory, I knew all the answers. In practice, to this day I don't know how to behave or how to deal with it.
Português (Brasil)
Eu sempre fui uma criança curiosa. Lembro nitidamente de ocasiões em que passava horas observando bolhas de sabão e tentando identificar algum padrão. Percebi que enquanto haviam cores coloridas se mantinham intactas até surgirem manchas escuras pouco antes de estourarem. Esse tipo de situação me rendeu alguns apelidos entre meus familiares como Professor Pardal e Cientista Maluco. Para mim, era apenas curiosidade.
Certa vez descobri que as pedras, apesar da aparência feia por fora, poderia ser muito bonitas quando quebradas revelando brilho, desenho e cores até então escondidas. Foi assim que passei a ver as pedras com outros olhos e passei a colecioná-las. Era uma coleção muito bonita, mas também me rendeu uma cicatriz na testa que tenho até hoje, adquirida em uma tentativa de quebrar uma pedra que ricocheteou e me acertou em cheio, resultando em alguns pontos no hospital.
Mais tarde, descobri os mapas e fiquei fascinado com a possibilidade de viajar por estradas desconhecidas e conhecer outras cidades, o que me rendeu alguns sumiços que preocupavam a minha família porque eu demorava horas para voltar para casa tentando descobrir novos caminhos.
Por essas características, já dava para perceber que havia algo diferente comigo. Mas o que era? Uma professora comentou com minha mãe que eu era muito estudioso, mas também me distraía muito fácil e passava a brincar com o meu material escolar durante as aulas.
Também ficou evidente que meu desempenho dependia do meu interesse, se chamava a minha atenção era possível que me aprofundasse no assunto muito além do necessário. Foi assim que li a biografia de Hitler, escrita por Joachim Fest, que possui um total de 1.056 páginas. E foi assim que um professor me chamou para conversar, preocupado com uma bandeira nazista desenhada no verso de uma prova. Não se tratava de uma identificação com a ideologia de um psicopata como Hitler, mas de um interesse fora do comum por histórias que me chamavam a atenção.
Outra coisa evidente era a falta de percepção de que alguns interesses poderiam produzir julgamentos e até mesmo desconfiança com relação ao meu comportamento. Eu não me adequava em apenas reproduzir conhecimento ou seguir padrões estabelecidos. Tudo era questionável. E isso pode se tornar um problema.
Eu não me encaixava nos padrões profissionais, tanto que realizei várias entrevistas e raramente recebi algum retorno referente ao meu desempenho ou possibilidade de contratação. Por isso, resolvi prestar concursos públicos, uma forma de obrigar a me contratarem. Afinal, eu sempre tive facilidade com a lógica das provas. O que eu não entendia era a lógica humana mesmo.
No entanto, também ficaria evidente que, mesmo assim, dificilmente eu me contentaria com um trabalho comum e pouco criativo. Foi assim que pedi exoneração de todos os cargos que assumi e que não duravam mais do que um ou dois anos. De pouco adiantava a minha habilidade em resolver questões teóricas se na prática não conseguia lidar com a rotina de trabalho.
Criei a minha própria empresa individual e conquistei alguns clientes oferecendo marketing digital, sendo um dos primeiros profissionais a atuar na área. Até que durou bastante, foram cinco anos e meio. Hoje, eu sei o que me fez permanecer durante tanto tempo, para os meus padrões, vinculado a um mesmo projeto. Eu criei o meu próprio trabalho, não segui manual, ainda não haviam regras e caminhos a seguir.
Tentei nada mais, nada menos, do que quatro graduações universitárias diferentes apenas para descobrir que também não me encaixava no mundo acadêmico e profissões pré-estabelecidas. Só então percebi que estava vivendo de uma maneira tão diferente que estava em conflito comigo mesmo.
Tentava me encaixar, mas não conseguia de jeito nenhum. Finalmente, procurei ajuda com uma profissional de psicologia, tentando entender o que acontecia comigo. Desconfio que ela não descobriu porque até hoje ainda tento entender o meu comportamento. Algumas coisas até podem ser traumas familiares, mas não poderia ser só isso.
Foi então que, conversando com um dos poucos colegas com quem me sentia à vontade para conversar, ele me contou que estava tratando déficit de atenção. Eu me identificava muito com ele e o diagnóstico dele me deixou curioso. Será que era isso?
Pesquisei e descobri que havia um grupo de apoio voltado para pacientes diagnosticados com TDAH e familiares. Na primeira reunião, anotei todas as características descritas por eles em situações do dia-a-dia. Absolutamente tudo o que eu sentia estava sendo descrito ali. Parecia a história da minha vida.
Fiz alguns testes para identificar se realmente era a minha condição e o resultado foi uma pontuação altíssima. Semelhante à minha pontuação em todas as provas que realizava. Na teoria, eu sabia todas as questões. Na prática, não sei até hoje como me comportar e como lidar com isso.