As pessoas da pequena cidade puxavam a corda que, atada à coluna central do templo, fazia com que esta fosse cedendo entre gemidos e chiadeiras, até ao tombo estrondoso e poeirento. As vigas grossas de madeira, apoiadas nas outras quatro colunas das quinas, ainda seguravam o telhado; mas por quanto tempo? Quando o pó começou a assentar, alguém olhou para o tecto, soltou um grito abafado pela mão, e, apontando para cima, chamou a atenção de todos, que viram com terror as crianças empoleiradas nas traves: elas queriam assistir ao derrube titânico, e dali a vista era sem dúvida a melhor. Rapidamente a aflição geral e o pânico dos pais deram origem à confusão, e à pouca eficiência na tentativa de salvamento.
Aquelas traves estavam na iminência de desabar, e com elas as crianças, se nada fosse feito de imediato. A mesma pessoa que primeiro as vira, gesticulando, gritava-lhes para que descessem. Os miúdos mais velhinhos, apercebendo-se agora do perigo, começavam a querer descer, mas o medo já se tinha instalado. Os homens, entretanto, faziam autênticas escaladas usando as reentrâncias das paredes, os nichos, as estátuas de pedra, outros traziam escadas e trepavam, e com a ajuda de todos, aqueles pequenos futuros foram postos a salvo. Agora, já fora do templo, entre choradeiras de alívio e reprimendas severas, o ambiente ficou mais calmo conforme o susto ia passando.
Este acontecimento fê-los esquecer por um bocado a razão de tudo aquilo, e, como uma tomada de consciência colectiva, foram-se tornando silenciosos, as vozes dando lugar aos murmúrios, até se extinguirem.
Com os olhos postos no edifício que teimava em ficar de pé, um a um, foram-se retirando, ficando a praça vazia, exceptuando talvez um rato em correria cega, fugindo do gato pardo de quem o cão castanho não gostava e perseguia, isto depois de ser indolentemente escorraçado pelo mendigo andrajoso, desde sempre sentado no último degrau do templo, de onde nunca vira uma esmola.
A pessoa que dera o alarme, que apontara o perigo, afastou-se sem mais delongas assim que a última criança foi pousada no chão. Era uma mulher madura com aparência ainda jovem, de cabeleira comprida com ondas largas douradas batendo-lhe suavemente nos quadris roliços. Caminhava apressada pela rua larga ladeada por muralhas de pedra ancestrais. O dia ia a meio, e, enquanto uma parede providenciava uma sombra escura perfeita, a outra quase a cegava com a luz intensa de um sol abrasador. No chão, a linha divisória entre a luz e a obscuridade parecia dar-lhe a inspiração para o que ela tinha de fazer. Os seus pés caminhavam decididos, olhava para baixo e via-os, um pé no escuro, outro na luz, e outra vez e outra, cada vez mais rápido até ficar com a sensação de quase não tocar o solo.
No fim daquela rua vazia e neutra, perpendicularmente abria-se um enorme espaço na sua frente, e, parada, a mulher observava à direita o jardim de água com os seus vários cursos cristalinos ornados de plantas vivazes tão delicadas, protegidas pelas copas altas das árvores. No meio do jardim, na clareira, uma Orbe branca esclarecia a espiritualidade do espaço, e, no seu pólo, um relógio de sol feito de pedra lembrava-nos que o tempo serve para nos acharmos e para nos perdermos. De costas, estava um homem dobrado sobre um dos canteiros; dispunha cuidadosamente as pequenas pedras em volta de uma árvore anã que plantara havia muitos anos. Ela lembrava-se desse dia com a mesma frescura daquelas águas…
«Chovia torrencialmente há vários dias e noites, e ela, então ainda uma menina, era a preocupação dos seus tutores. Desde que a tempestade começara os pesadelos não cessavam, e a pobre criança quase não dormia, agitada durante a noite acordava encharcada em suor assustada e a gritar palavras incompreensíveis.
O sol acabou por brilhar e, sob o manto calmo da lua, as noites ficaram mais tranquilas. Porém o problema ainda existia, e a conselho do físico Imhotep, levaram Aira à presença de um jovem ‘conectivo’, na região Este de Pan. Viajaram subindo o rio grande numa embarcação, que não era propriamente de passageiros, mas de recolha de tonéis, atracando amiúde para desembarcar uns vazios e substituir por outros cheios. Com a paciência já à prova, ao fim de uma tarde em tons pastel, finalmente avistaram Petra. Era uma cidade imponente e, dizia-se, ‘com ideias muito avançadas’. Mas, de tudo isto, Aira só se lembra daquele rapaz magro de rosto atraente, a pele alva e lisa, o cabelo suavemente ondulado, de semblante sereno e olhar meigo e profundo. Por alguma razão as pessoas naturalmente confiavam nele, e no seu espírito esperançoso. Assim, Dérop pegou na mão da pequena Aira e sentou-a gentilmente na sua frente, os seus olhos não se desviaram nunca, o silêncio fez-se nas aves canoras, nas águas que pararam de correr, no vento que deixou de bulir, nos seus corpos que desistiram de interferir e, de espíritos desnudos já no tempo ausente, viajaram embalados pela vertigem do espaço entre doces notas musicais. Os olhos nocturnos do jovem carregavam uma antiguidade profunda, e ao mesmo tempo uma inocência desconcertante. Foi com este olhar que Dérop penetrou a mente de Aira, e pôde ver o seu tormento.
Como uma rede de caçar borboletas a mente de Dérop lançou-se sobre aquela memória perdida, desajustada, aprisionando-a, e, com a energia e concentração certas, o jovem pôde assumi-la, e esta facilmente se revelou em sonho: Aira vê-se como um rapaz muito novo, está guerreando no meio de muitos outros, contra um grande chefe das Escarpas de Gelo Azul. Dois clãs lutando até à morte… Aira vê-se dentro de uma cabana, o som do metal das armas é arrepiante, os gritos e rugidos assustam-na. De repente tudo acaba, ela tem frio, muito frio, a espada pesada e gélida do grande chefe tinha-lhe trespassado o abdómen, e o rapaz Aira caía sem vida no chão de pedra. Ainda de olhos abertos ele via a batalha que continuava, mas sem um único som, e como uma triste Ofélia enchia com as suas lágrimas um rio, que o levava suavemente por entre flores desmanchadas, de volta ao princípio para sofrer tudo de novo.
Dérop continuou a olhar para Aira, esta estava calma, só uma fina lágrima se desprendera e rolara pela face doce da jovem. Ele observou-a no curto e gracioso trajecto até ao pequeno queixo curvilíneo, viu-a ficar pendurada sobre o abismo e, no momento certo, estendeu a mão em forma de concha e aparou a gota salgada; Aira sorriu e brilhou para Dérop; este por sua vez levou a mão à boca e com a ponta da língua absorveu o néctar.
Alguns Verões se passaram, e no mais excelso dos Outonos unir-se-iam para a vida, e na sua intimidade ficariam unidos para sempre. Três estações findaram, e num Inverno poderoso carregado de elementos, cuja energia descia, parava e deslizava pelas ruas em espectros multicolores, numa manhã fria e ensolarada, Aira sentiu as primeiras dores do parto e, quando o Sol marcava no relógio da Orbe branca o meio-dia, deu à luz um rapazinho cheio de saúde que, fazendo-se ouvir a plenos pulmões, escusou o físico Imhotep de lhe açoitar o pequeno ‘rabiosque’. Este velho amigo com uma ligação paternal a Aira, que também ajudara a nascer, viria igualmente a acompanhar o seu filho ao longo da vida.
Dérop pôs a criança nos braços de Aira, depois pegou em ambos ao colo e dirigiu-se ao seu jardim de água com um orgulho e uma felicidade capazes de o fazer levitar. Sentou-os delicadamente num banco de mármore e, com o mesmo cuidado, pegou numa árvore-miniatura e plantou-a; com as mãos fez uma concha, tirou água de uma das levadas e regou-a dizendo:
— Dou-te o nome ‘alma Vésper’. — Depois voltou-se para a mulher e filho, e com a mão ainda molhada pousou-a carinhosamente na cabeça do menino: — Dou-te o nome ‘Vésper Dérop Aira’ em espírito e em alma, para a vida e para a memória.
Aira observava-o, transbordando de amor. Dérop beijou-a e ao filho, pegou neles e voltaram para dentro de casa.»
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A seguir…
O Conto da Orbe | Episódio 2
O Jardim de Água — “Um Pai severo”
Os Ilustres são inteirados do ocorrido no templo. Todos têm uma opinião, e uma verdade. Ebúrneo sente-se perdido.
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