… Dérop sentiu-a e voltou-se. Ela percebeu que já a esperavam na casa, ele deu um passo na sua direcção, ela tranquilizou-o e disse:
— É melhor esperares por Diáfana aqui no jardim. — Avançou para ele, beijou-o nos lábios e entrou na grande sala. Encontravam-se de pé os quatro Ilustres. Aira gentilmente convidou-os a sentarem-se; acomodaram-se em círculo nas grandes almofadas bordadas a fios de prata, onde a luz, que entrava suave pelas várias janelas à esquerda e à direita, ricocheteava e ganhava vida no tecto ao unir-se com os reflexos dançantes das águas do jardim. No meio deles encontrava-se um pequeno fogão em ferro forjado com um trabalho minucioso lembrando uma renda, que deixava ver no seu interior as pedrinhas de carvão em brasa; Aira colocou-lhe em cima um bule, preparou uma infusão de ervas aromáticas e purificantes que ofereceu aos presentes em delicadas taças de cerâmica vidrada, bebeu um gole e pousou a sua, aninhou as mãos brancas e magras sobre o colo e, com os olhos postos no lume, respeitosamente, começou:
— Os acontecimentos a que agora mesmo assisti no templo e na praça, são expressões claras da vontade de todos, nesta cidade, em querer mudar o rumo das suas vidas espirituais… — Voltou a servir as taças já vazias e continuou: — porém, sentem-se reféns da ideia milenar de que algo superior os observa e protege, e que, como um Pai severo, não hesitará em punir os seus filhos desobedientes; e (num desenrolar facilmente explicável de actos e consequências no plano arquitectónico humano) este ancestral conceito, defendido com veemência por Ebúrneo, viu-se de repente prorrogado por tempo indefinido… — Nesta última frase levantou os olhos para o Guia do templo. Este, que de tão magro e seco quase não fazia cova na almofada, deixou escapar da boca entreaberta de espanto um «Não percebo…»
— Caro Ebúrneo, vai acabar por entender eventualmente. É tudo uma questão de tempo, a História está repleta de exemplos. A mudança é a tónica inevitável… ou o meu amigo pensava que tudo isto era estático? Em minha opinião, as almas no campo-santo e as pedras que as cobrem são o que há de mais eterno. E mesmo assim, às palavras nelas gravadas, o tempo leva-as. Talvez se conduza em demasia o curso da vida alheia, presumindo saber o que é melhor para todos… quando às vezes o melhor é deixar a vida ‘ao sabor dos ventos’.
Este é Erudito, um homem humorado e muito sério, um guardador de memórias votado ao silêncio, e apenas à observação; mas havia muito que as suas intervenções se tornaram vantajosas, e o seu ‘voto de silêncio’ esquecido. Ao contrário de Ebúrneo, Erudito ganhara peso e, à semelhança dos seus mui apreciados romanos clássicos, agora espojado em três grandes almofadas, servia-se de mais bolinhos de amêndoa e figos que Aira distribuíra, juntamente com amoras e morangos frescos do jardim.
Ela podia sentir a tristeza e a preocupação de Ebúrneo, e este só perguntava baixinho: «Porquê…? Porquê?»
— Não se deixe apoquentar demais… — disse-lhe Virtuoso, homem das Artes — apesar das mudanças, também é sabido que a História se repete, e as pessoas precisam sempre de quem as oriente, mesmo depois de se libertarem das ditas amarras, sejam elas quais forem… E só para citar um dos teus mui amados romanos clássicos, caro Erudito: «Àqueles que não sabem a que porto se dirigem, nenhum vento lhes será favorável!»
Eram famosas as disputas intelectuais entre Erudito e Virtuoso, basicamente porque um registava os factos da vida, enquanto o outro tinha a liberdade de a compor e recriar. Erudito, irritado, falou desdenhoso:
— Para quem se diz tão livre e liberal, estás muito seguro das regras. Não te parece algo paradoxal?!
Virtuoso bebia, e não fosse o vermelho das faces, dir-se-ia imperturbável. Não respondeu à provocação, em vez disso suspirou resignado. Ebúrneo ia começar a falar, mas Erudito não queria ir sem resposta e voltou à carga:
— Ah! O silêncio… Arma poderosa. De longe, ficamos a salvo da fealdade, e à distância estéril de conhecer a beleza. Em suma, sem a liberdade de escolha, e portanto sem nada para dizer; porque se fica sem nada saber e ainda menos para fazer, nada para dar, nada para se ser!… — E sorriu fitando-o à espera. Virtuoso impávido retorquiu:
— Em suma, acabaste de te definir na perfeição.
Erudito, vociferante, fez menção de se levantar. Aira agarrou-lhe o braço e pediu aos dois que se focassem no assunto que os trouxera até ali. Pegou num raminho seco de alfazema e atirou-o para as brasas do pequeno fogão; pouco a pouco, o aroma relaxante insinuou-se produzindo o efeito desejado. Ebúrneo finalmente pôde falar, e, com a voz arrastada e as mãos trémulas, culpava-se pelo tumulto descrito por Aira, ao mesmo tempo desculpando-se por não ser o autor dos cânones pelos quais se regia, e de novo se culpava para depois voltar a desculpar-se, e isto quase até à irracionalidade. Os dois homens, que antes se digladiavam, entreolhavam-se perturbados.
Imhotep, o físico, um dos tutores e figura paternal de Aira, que até ali se mantivera calado, interveio acalmando o Guia do templo, que se desfazia em lamentos. Destapou um pequenino frasco, despejou duas gotas do líquido leitoso na taça e deu-o a beber a Ebúrneo; certificou-se da sua tranquilidade e pulsação durante um bocado, e, satisfeito com o paciente — agora levemente adormecido —, arrumou o frasco, voltou para o seu lugar e, ajeitando o corpo nas suas almofadas, desabafou:
— À excepção óbvia do velho Ebúrneo, que como eu já viu melhores dias, assisti-vos aos três no nascimento, assim como a quase todas as crianças desta pequena cidade, as mesmas cujas vidas tão preciosas, hoje, por um triz, não eram ceifadas de um só golpe. Dá que pensar… Sobretudo no motivo por que aqui estamos, e é simples: Ebúrneo recusou sepultura em solo sagrado ao suicida (pai das duas crianças assassinadas), e ao criminoso encarcerado que as matou concedeu-lhe o ‘perdão’, perante mostra de arrependimento. A reacção das gentes era fácil de prever: a sua revolta contra o templo, e tudo o que este representa. Reviram-se naquele pobre pai, e sentiram-se traídas.
— ‘E o resto é silêncio’… — disse Erudito na direcção de Virtuoso. Este assentiu com um gesto da cabeça reconhecendo a citação.
Na sala imóvel, subitamente, as leves cortinas transparentes das janelas e da grande porta, sopradas suavemente por Zéfiro, iniciaram um bailado de sobe-e-desce dessincronizado, parecendo musas manifestando inspiração. Tudo ganhou vida, numa dança de sombra e luz. Na porta apareceu Dérop ao lado de sua mãe Diáfana.
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A seguir…
O Conto da Orbe | Episódio 3
O Jardim de Água — “Desnorteados de espírito”
Diáfana alinha as almas… e os comportamentos.
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