A algumas semanas atrás comecei a assistir Black Mirror. Talvez um dos seriados mais pesados que já assisti. Não mostra violência, tiros, sangue, mas o efeito é bastante similar. A serie choca apenas mostrando a realidade da nossa sociedade. Gostei bastante e pretendo acompanhar mas ainda não consegui chegar ao terceiro episódio, acho que não me recuperei ainda dos dois primeiros. Você precisa ser forte para digerir tudo e assistir os episódios em sequência, como nós gostamos de fazer com uma série que gostamos.
Se você já assistiu ao primeiro episodio e leu o título desta postagem, talvez já entendeu a referência. Para você que não assistiu ou não se lembra, o primeiro episódio chamado de "The National Anthem" fala sobre um seqüestro de uma princesa. O resgate que eles pedem para sua vida é um pouco bizarro. Não pedem dinheiro ou qualquer outra coisa de valor. Mas ter um vídeo do primeiro ministro da Inglaterra transmitido ao vivo para todo o país. Neste vídeo, ele deve ser filmado mantendo relações intimas com uma porca. Mais perturbador do que isso é que, no final do episódio, a população esquece que a vida de alguem está em risco e todo o país se reune em frente da TV como se fossem assistir a uma final de Copa do Mundo.
No final do episodio eu fiquei me perguntando por que os seres humanos amam tanto as tragédias e as más notícias. Vídeos de violência, pessoas sendo gravemente feridas ou até morrendo sempre recebem enxurradas de visualizações no youtube e se tornam virais no Facebook. E parece que aquele aviso dizendo "as imagens a seguir contêm gráficos que podem ser perturbadores para algumas pessoas" servem apenas para deixar as pessoas mais curiosas para ver.
Toda vez que vejo alguma notícia ruim na TV, independentemente da natureza, sempre tenho um pensamento na minha mente: os jornalistas adoram uma boa tragédia. Quanto mais pessoas envolvidas, melhor. Quanto maior a dimensão da tragédia, mais pessoas na frente das TVs. Aqueles rostos sérios, transtornados não me enganam, eu sei que eles estão animados por dentro. Vão ter pauta para o mês inteiro: Como aconteceu [em detalhes], quem eram as pessoas envolvidas na tragédia, que são suas famílias, a repercussão internacional, como o presidente e as celebridades reagiram, uma atualização do que está sendo feito após o incidente. Provavelmente eles até devem ter um checklist de todas as formas de se explorar uma tragédia e assim poder dar uma pausa na pesquisa de pauta por algumas semanas.
Mas eles apenas exploram tanto as tragédias porque amamos isso. Porque nós paramos o que estamos fazendo para assistir. Algumas pesquisas dizem que gostamos de tragédias pela sensação que nos traz de que temos mais sorte do que aquelas pessoas envolvidas. Outras dizem que é a adrenalina que o cérebro libera quando observamos algo assustador, como um vídeo ou uma imagem. Mas eu tenho outra teoria. Penso que gostamos de ver algo extraordinário acontecendo em nossas vidas. Todos os dias as pessoas fazem as mesmas coisas: acordam, tomam café da manhã, trabalham, voltam para casa, fazem alguma outra coisa e vão dormir. Uma tragédia (desde que não seja nossa, é claro) traz algo novo. Ela quebra a rotina e também traz sensação de frágilidade das nossas vidas. As boas notícias não nos dão os mesmos sentimentos. Esquecemos rápido delas. Notícia ruins marcam. Martelam nossa mente o dia todo. Continuamos a pensar nelas por dias. Talvez seja uma coisa ancestral que nos faça lembrar do perigo, enquanto que as boas notícias não oferecem nenhum risco para nossa segurança então podemos relaxar e esquecê-las.
Sendo assim, não acho justo condenar essa nossa fixação por tragédias. Mas acredito que poderiamos lidar melhor com elas, sendo mais honestos conosco mesmo reconhecendo que gostamos de um certo caos. Talvez seja a própria repreensão que provocamos no nosso gosto por tragédias que nos faz consumidores facéis de sensacionalismo da mídia.
Adaptado da versão inglês:
https://steemit.com/life/@ariane/our-secret-pleasure-for-tragedies