Olá, amigos. Tudo bem?
Na semana passada expressei a vocês o desejo de escrever um livro e postei aqui o esboço (bem inicial mesmo) de um capítulo que escrevi. Era algo totalmente experimental, meio que feito a esmo, sem grandes expectativas. Para a minha surpresa, a recepção foi extremamente positiva aqui no Steemit, o que acabou me encorajando a escrever mais.
O primeiro capítulo pode ser lido neste link: https://steemit.com/portuguese/@fabio.martins/desejo-escrever-um-livro
Segue abaixo um esboço de segundo capítulo do meu livro. Espero que vocês gostem! Aceito qualquer tipo de sugestão, orientação, análise, crítica.
Saudade
Capítulo 2
Não caminhou por muito tempo. As costas doíam, as pernas estavam frágeis e o coração apertado. Sentou-se em um banco próximo, pois não queria se afastar muito da praia que o impossibilitasse sentir o cheiro do mar e ouvir o balanço das ondas. A verdade da perda, mesmo que escancarada, ainda não lhe era palpável.
Com a cabeça vaga, pensava em tudo e nada ao mesmo tempo, meio avoado e melancólico. Divertiu-se com um cão que passava farejando tudo próximo ao banco em que estava. O afago foi bom, mas a ausência de petisco na mão impossibilitou-o de prender o animal, que animal que logo se foi em busca de comida.
Voltou a lembrar de sua juventude. Naquela época, seu ímpeto masculino ia todo vapor e não havia barreira forte o suficiente para separá-lo de Dolores. Se o fato de ter que encarar o Coronel Vicente o amedrontava, a possibilidade de não ter Dolores em sua vida assombrava-o. Estava fora de cogitação.
O que não imaginava era que Dolores também havia reparado nele de forma diferente. Não estava apaixonada, é bem verdade, mas simpatizou com seu jeito cortês e atrapalhado e não pôde deixar de prestar atenção naquele olhar que o jovem a lançou assim que se cruzaram. Imediatamente percebeu que ele a via de forma diferente.
Naquela mesma noite a garota teve um sonho em que saía de casa sem rumo. Deparou-se com a mesma esquina que o jovem lhe ofereceu abrigo contra a chuva e o aguardou lá por três dias e três noites sem dormir e sem comer. Quando suas forças iam se esvaindo, uma ave pequena com olhos tão intensos e grandes como os de uma coruja pousou em cima do parapeito e lhe disse:
- É ele. Não se preocupe, ele não vai desistir de tê-la. O maior problema encontra-se ao seu redor.
Acordou de sobressalto, molhada de tensão e com mil pensamentos. O recado da ave era bem claro e ela logo percebeu que seu pai não permitiria o menor contato. Caberia a ela, portanto, esforçar-se para facilitar uma aproximação de Santiago sem a sombra paterna pairando sobre suas cabeças.
O relacionamento de Dolores com o pai não era muito afetuoso. Após a derrota desastrosa para as forças vigentes do Exército e 10 anos de prisão, o Coronel Vicente tentou começar do zero em sua cidade. Contudo, era impossível ir a qualquer lugar sem que os locais não o olhassem com desdém ou fizessem troça de sua história. Todos sabiam quem ele era, e as sequelas eternizadas em seu corpo durante a batalha o acompanhariam para sempre, como um estigma a ser pago pela traição.
Decidiu, então, mudar-se para outra cidade, a fim de enterrar o passado e iniciar uma nova vida. Rapidamente adaptou-se ao novo lar. Era um militar durão, que já havia passado muitos anos preso, e não precisava de regalias. Qualquer lugar com paz e o mínimo de conforto estava bom. Aproximando-se dos 40 anos e sem experiência profissional devido à sua carreira militar, contentou-se com um trabalho simples e salário honesto. Nessa época, já estava conformado em passar o resto de sua vida sozinho, mas tudo mudou ao conhecer uma mulher de aparência forte e cabelos claros.
Arlete tinha uma história trágica. Viúva por duas vezes em acidentes inusitados e sem parentes próximos mortos em outras situações, aprendeu a lidar com a dureza da vida batendo de frente com ela. Tinha dois empregos e muita determinação. Seu coração duro sofreu um baque ao conhecer aquele rapaz soturno e silencioso, mas com olhos sinceros para ela.
Quando Arlete anunciou a gravidez, pouco antes de completarem dois anos juntos, a reação dele foi imediata:
- Casa comigo? – propôs.
A cerimônia simples ocorreu em um sábado de temperaturas altas e chuvas fortes esparsas, uma semana antes de Arlete dar à luz a Bernardo, primeiro filho do casal. Quatro anos depois, o casal recebeu a sua segunda bênção com o nascimento da pequena Dolores, com menos de três quilos e aparência frágil.
Porém, outro grande golpe ocorreu na vida do Coronel Vicente. Com a relação já desgastada devido ao temperamento difícil de ambos, Arlete decidiu romper o casamento ao descobrir o passado enterrado do marido. O que a incomodava não era a atitude dele de outrora, e sim o fato de ele ter mentido por tantos anos. Naquela casa, a mentira era inadmissível.
Desconsolado, Vicente voltou à sua cidade natal sozinho e na surdina. Recluso na casa verde, remoeu-se de angústia e saudades de seus amados. Até que, em uma grata manhã de quarta-feira, a irmã de Arlete apareceu na porta da casa com Bernardo, de quatro anos, e a recém-nascida Dolores. Arlete havia morrido de repente, após passar mal no dia anterior. Os vizinhos dizem que foi de amargura. Os filhos, agora órfãos de mãe, cresceriam com o pai.
Foi naquela mesma porta que Santiago bateu 17 anos depois para acabar com a paz do Coronel.