Depois de anos a trabalhar irracionalmente, finalmente decidi tomar medidas para deixar o meu emprego e mudar o mundo!
Estou a trabalhar numa empresa que faz consultoria e programação informática. É uma empresa pequena e, apesar de trabalharmos muito, o ambiente é descontraído e divertido. O patrão é uma pessoa espectacular e dá-me liberdade quase total para gerir projectos e as tarefas do dia-a-dia. Ordenado não é brilhante mas está a acima da média do mercado para o tipo de trabalho que desempenho.
Apesar de ter um emprego que muitos invejariam, depois de pensar bastante, cheguei à conclusão de que quero deixá-lo, não para o trocar por outro mais bem pago ou com melhores regalias, mas para fazer algo bem mais importante. Eis as minhas razões:
Tempo
O tempo que gasto no emprego, incluindo deslocações, representa cerca de 10h/dia, que se traduz em 62,5% das 16h úteis (em que estou acordado) do dia! Numa perspectiva mais abrangente, considerando que trabalho em média 21 dias/mês e 11 meses/ano, o tempo total consumido anualmente representa cerca de ~40% das 5840h úteis do ano. Isto é o equivalente a trabalhar 6.3h/dia TODOS os dias do ano, incluindo feriados, férias e fins-de-semana. E isto representa apenas o horário laboral. Outra componente crucial desta equação são as horas extra, uma necessidade recorrente no trabalho que desempenho, que aliadas aos problemas e preocupações que trago para casa, consomem grande parte do que resta do meu tempo.
Escusado será dizer que todo este investimento de tempo tem um impacto profundo na minha vida pessoal. O pouco tempo que me resta após um dia de trabalho é passado a tentar conciliar as tarefas do dia-a-dia com a atenção que as pessoas importantes da minha vida exigem. Os fins-de-semana e feriados servem, principalmente, para repôr energias e tratar de assuntos pendentes. Foi nesta roda viva que as semanas se transformaram rapidamente em meses e os meses em anos, e que dei por mim a olhar para trás e pensar para onde é que todo esse tempo foi...
Mentalidade
O principal objectivo de qualquer negócio é fazer dinheiro, toda a gente sabe isso. Na empresa onde trabalho, a principal estratégia para atingir esse objectivo é servir bem o cliente. É uma abordagem honesta, uma das mais antigas e sólidas, e não estou contra ela de forma alguma. No entanto o velho chavão “O cliente tem sempre razão” parece ter um efeito negativo no meu desenvolvimento.
Em inúmeras situações, vi as minhas ideias serem ignoradas ou desvalorizadas, simplesmente porque o cliente tinha uma visão diferente das coisas e não estava aberto a outras perspectivas. Isto obrigou-me, na maior parte destes casos, a adoptar abordagens que sabia de antemão que não iam resultar ou que eram pouco eficientes. À medida que estes cenários se foram repetindo, senti-me cada vez mais desmotivado e dei comigo a rejeitar responsabilidades - “Como a ideia não é minha, se correr mal, a culpa também não é minha”. Por outro lado, por não conseguir ver os resultados das minhas próprias ideias, perdi várias oportunidades para aprender a melhorar, e praticamente assumi o papel de executor cego. Tudo isto afectou a expansão do meu pensamento crítico e criativo e tornou-me menos responsável pelas minhas acções e mais sujeito à vontade dos outros.
Proposito
Deixei para o fim a razão mais importante, pela qual quero largar o meu trabalho. Enquanto que os outros motivos de que vos falei podem ser ultrapassados, até certo ponto, com empregos que consumam menos tempo, ou que dêem mais poder de decisão, o propósito pelo qual trabalho revelou-se o factor decisivo.
Quando comecei a trabalhar tudo era novidade, aprendi muito, a nível técnico e interpessoal. Estava a aplicar aquilo que estudei e a conhecer pessoas novas e realidades diferentes. No entanto, com o passar dos anos, comecei a questionar as minhas acções e, no que toca ao emprego, comecei a sentir cada vez mais que, tirando a questão monetária, não existe nenhum propósito naquilo que eu faço. Não estou contribuir para a nossa evolução, enquanto espécie, nem a salvar vidas ou a ajudar as pessoas a ter uma vida melhor. Sei que indirectamente estou a contribuir para a economia do meu pequeno país, que contribui (eventualmente) um pouco para que a sociedade prospere. Mas será que vale a pena continuar a trabalhar em algo que tem um impacto tão reduzido e até hipotético? Será que o meu tempo não seria muito melhor aplicado em projectos mais activamente direccionados para o bem comum?
Imagem 1: Fonte
Obrigado por lerem!
Este é o primeiro post de uma série que descreve a minha jornada, para deixar o emprego e criar uma organização com o objectivo de causar um impacto positivo no mundo. Neste post contei-vos quais os motivos que me levaram a querer fazer isto. Os próximos posts da série falarão da abordagem que vou seguir e dos passos que acho necessários para atingir o objectivo. O caminho vai ser longo e difícil mas eu estou determinado a segui-lo e gostava de poder contar com o vosso apoio.
E vocês o que acham?
Alguma vez sentiram que a maior parte do vosso tempo e energia vai para o vosso emprego e que deixam de ter tempo para o que realmente importa? Já se sentiram frustrados por serem obrigados a fazer o que os clientes/chefes querem, em vez de utilizarem o vosso próprio raciocínio e experiência para resolver os problemas?Partilhem as vossas questões e opiniões!
Querem saber mais sobre mim e o meu trabalho? Consultem o meu blog.
Até breve!
Ricardo