Publicado en Español, Inglés y Portugués.
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Hay una analogía que duele por su precisión, así como un individuo puede perder su sentido de identidad o sea sentirse desconectado de sus propios pensamientos, de su cuerpo, de su historia, también una sociedad entera puede experimentar la fractura de su yo colectivo.
Esto no es metáfora poética. Es un diagnóstico clínico aplicado al cuerpo de la sociedad actual.
Después de una guerra civil o una crisis económica devastadora, las certezas compartidas se desmoronan. "Somos un país trabajador", "somos solidarios", "sabemos quiénes somos", todo eso se vuelve solo murmullo infértil. Aparece entonces la despersonalización social vemos como la gente observa cómo su propia sociedad actúa sin autenticidad, de manera automática y sin rumbo. Así como lo hace un autómata que camina pero ya no elige el destino.
También ocurre de forma más gradual, la globalización, el consumismo desbocado, la digitalización de la vida, todo eso diluye los rituales, las tradiciones, los relatos que cohesionaban al grupo. Y en su lugar emerge un vacío. Las instituciones se sienten como un decorado. Las normas, como una ficción que ya nadie sostiene. La fragmentación se vuelve polarización tóxica, cada grupo construye su propia realidad, y el "nosotros" común se encoge hasta casi desaparecer.
Pero aquí viene lo inquietante, esa pérdida del yo social no es necesariamente un final. También puede ser una apertura.
La historia muestra que las grandes crisis como la posguerra, la Gran Depresión, las pandemias, pueden forzar cambios estructurales que en tiempos de estabilidad serían impensables. Nuevos pactos verdes, repensar el trabajo, movimientos por cuidados y salud mental colectiva, ciudadanías más activas y horizontales. Si el viejo yo social se disuelve, quizá pueda nacer otro más flexible, más empático con la interdependencia real que siempre existió, pero que el individualismo salvaje ocultó.
Lo incierto, y aquí el diagnóstico se vuelve crudo, es si ese parto será con dolor controlado o con catástrofe. Porque una sociedad que ha perdido su yo tiene dos caminos uno es aferrarse a identidades endurecidas tales como nacionalismos agresivos, autoritarismos de manual utilizándolos como muletas desesperadas, o aceptar la disolución como una oportunidad para recomponerse de forma más lúcida.
Hoy, mirando el mundo, nadie puede decir con certeza hacia qué lado se inclina la balanza. Hay fuerzas para lo peor, la erosión democrática, las guerras por recursos, la normalización del odio. También hay semillas para lo mejor, cooperación Sur-Sur, autonomía energética y alimentaria, redes de cuidados que no aparecen en los titulares.
La diferencia final no la decidirán los grandes líderes ni los tratados internacionales. La decidirán los pueblos. Y su sabiduría o su cansancio para elegir quién los representa, en qué dirección empujan y qué tipo de humanidad están dispuestos a sostener.
Porque al final, el yo social no es una abstracción. Es la suma de actos pequeños, cotidianos, anónimos. Eso no cambia el mundo entero. Pero cambia el mundo de una persona. Y quizá, en cadena, eso sea todo lo que puede salvar al yo colectivo de desaparecer del todo.

ENGLISH
There is an analogy that hurts because of its precision: just as an individual can lose their sense of identity —feeling disconnected from their own thoughts, body, and history— an entire society can also experience the fracture of its collective self.
This is not poetic metaphor. It is a clinical diagnosis applied to the body of contemporary society.
After a civil war or a devastating economic crisis, shared certainties crumble. "We are a hardworking country," "we are supportive," "we know who we are" — all of this becomes barren murmur. Then social depersonalization appears: we see people watching their own society act without authenticity, mechanically and aimlessly, like an automaton that walks but no longer chooses its destination.
It also happens more gradually. Globalization, runaway consumerism, the digitalization of life — all of this dilutes the rituals, traditions, and narratives that once held the group together. In their place, a void emerges. Institutions feel like stage sets. Norms feel like a fiction that no one upholds anymore. Fragmentation turns into toxic polarization; each group builds its own reality, and the common "we" shrinks until it almost disappears.
But here comes the unsettling part: this loss of the social self is not necessarily an end. It can also be an opening.
History shows that great crises — like the post-war period, the Great Depression, pandemics — can force structural changes that would be unthinkable in times of stability. New green deals, rethinking work, movements for collective care and mental health, more active and horizontal forms of citizenship. If the old social self dissolves, perhaps a new one can be born — more flexible, more empathetic to the real interdependence that has always existed but that savage individualism concealed.
What is uncertain — and here the diagnosis becomes raw — is whether this birth will happen with controlled pain or with catastrophe. Because a society that has lost its self has two paths: one is to cling to hardened identities — aggressive nationalisms, textbook authoritarianisms — using them as desperate crutches; the other is to accept dissolution as an opportunity to recompose itself more lucidly.
Today, looking at the world, no one can say with certainty which way the scales tip. There are forces for the worse: democratic erosion, resource wars, the normalization of hatred. There are also seeds for the better: South-South cooperation, energy and food autonomy, care networks that don't make headlines.
The final difference will not be decided by great leaders or international treaties. It will be decided by the people. And by their wisdom — or their exhaustion — in choosing who represents them, in which direction they push, and what kind of humanity they are willing to sustain.
Because in the end, the social self is not an abstraction. It is the sum of small, everyday, anonymous acts. That doesn't change the whole world. But it changes one person's world. And perhaps, in a chain, that is all it takes to keep the collective self from disappearing entirely.

PORTUGUÉS
Há uma analogia que dói pela sua precisão: assim como um indivíduo pode perder seu senso de identidade — sentindo-se desconectado de seus próprios pensamentos, do seu corpo, da sua história —, também uma sociedade inteira pode experimentar a fratura do seu eu coletivo.
Isso não é metáfora poética. É um diagnóstico clínico aplicado ao corpo da sociedade atual.
Depois de uma guerra civil ou de uma crise econômica devastadora, as certezas compartilhadas desmoronam. "Somos um país trabalhador", "somos solidários", "sabemos quem somos" — tudo isso se torna apenas um murmúrio infértil. Aparece então a despersonalização social: vemos as pessoas observando sua própria sociedade agir sem autenticidade, de maneira automática e sem rumo. Como um autômato que anda, mas já não escolhe o destino.
Também acontece de forma mais gradual. A globalização, o consumismo desenfreado, a digitalização da vida — tudo isso dilui os rituais, as tradições, as narrativas que uniam o grupo. E em seu lugar surge um vazio. As instituições parecem cenário. As normas, uma ficção que ninguém mais sustenta. A fragmentação se transforma em polarização tóxica; cada grupo constrói sua própria realidade, e o "nós" comum encolhe até quase desaparecer.
Mas aqui vem o inquietante: essa perda do eu social não é necessariamente um fim. Também pode ser uma abertura.
A história mostra que grandes crises — como o pós-guerra, a Grande Depressão, as pandemias — podem forçar mudanças estruturais que seriam impensáveis em tempos de estabilidade. Novos pactos verdes, repensar o trabalho, movimentos por cuidados e saúde mental coletiva, cidadanias mais ativas e horizontais. Se o velho eu social se dissolve, talvez possa nascer outro, mais flexível, mais empático com a interdependência real que sempre existiu, mas que o individualismo selvagem escondeu.
O incerto — e aqui o diagnóstico se torna cru — é se esse parto será com dor controlada ou com catástrofe. Porque uma sociedade que perdeu seu eu tem dois caminhos: um é agarrar-se a identidades endurecidas — nacionalismos agressivos, autoritarismos de manual — usando-as como muletas desesperadas; o outro é aceitar a dissolução como uma oportunidade para se recompor de forma mais lúcida.
Hoje, olhando para o mundo, ninguém pode dizer com certeza para que lado a balança pende. Há forças para o pior: erosão democrática, guerras por recursos, normalização do ódio. Também há sementes para o melhor: cooperação Sul-Sul, autonomia energética e alimentar, redes de cuidado que não aparecem nas manchetes.
A diferença final não será decidida pelos grandes líderes nem pelos tratados internacionais. Será decidida pelos povos. E pela sua sabedoria — ou seu cansaço — para escolher quem os representa, em que direção empurram e que tipo de humanidade estão dispostos a sustentar.
Porque, no fim, o eu social não é uma abstração. É a soma de atos pequenos, cotidianos, anônimos. Isso não muda o mundo inteiro. Mas muda o mundo de uma pessoa. E talvez, em cadeia, isso seja tudo o que pode salvar o eu coletivo de desaparecer por completo.

