Gui levantou-se e pegou na lanterna. Ao abrir a porta apanhou o maior susto; todos se voltaram para ver do que se tratava: logo ali na entrada, iluminados pela luz do interior da casa estavam os quatro homens sentados em cima de uma enorme arca, de costas uns para os outros à espera, com ar bastante sorridente como sempre. Aquela imagem, algo insólita, lembrou a Vésper o dia da sua chegada com o seu malão; eram deveras intrigantes, aqueles quatro, nunca se lhes ouvira uma palavra, apenas riam e acenavam, pareciam comunicar entre si com uma linguagem própria, talvez a do olhar… Além disso, as suas parecenças físicas sugeriam parentesco, talvez irmãos ou primos, uma vez que aparentavam idades próximas.
Gui e Vésper convidaram-nos a entrar e a comer, mas eles não se mexeram, deixando os anfitriões baralhados, apenas riam e gesticulavam na direcção de Mentesúfis; este avançou para eles fazendo um pequeno gesto: foi o suficiente para que libertassem a misteriosa arca. Conforme entravam, Sara ia-lhes oferecendo lugar à mesa, para que se pudessem banquetear.
A esta altura já Gui se afastara na direcção da beira-mar — com a lanterna acesa, de modo a poder ler tranquilamente as últimas palavras do seu pai. Mentesúfis olhou para Vésper, que não tirava os olhos da curiosa arca; batendo ao de leve duas vezes na tampa disse-lhe:
— Esta é a mesma em cima da qual a tua amiga se esqueceu de parte do teu presente… — Piscando o olho para a filha. Sara retirou do pescoço alvo e esguio uma fitinha, antes escondida pelo vestido, de onde pendia uma chave que a jovem prontamente entregou ao amigo. Vésper ao segurá-la podia sentir o metal ainda quente do contacto com o peito da jovem, deixando-o por um breve e desconcertante momento perturbado. Sem aviso, a imagem de uma menina da sua infância saltou a ‘vedação’ e tomou-lhe conta do pensamento por segundos: era o rosto de Gaia, alegre e destemida, com quem ele brincava nos Verões de Pan, e a quem teria feito uma jura…
— Não lhe dizia, meu pai?! Hoje Vésper não anda cá, está na lua mais do que nunca. — E incitava o jovem a abrir a arca, que se desculpava desajeitadamente, sentindo-se um pouco vulnerável dada a natureza da sua distracção. Mentesúfis abreviando o momento, e cheio de antecipação por ver a cara do rapaz, disse:
— Lá dentro encontra-se a outra parte do teu presente. Vá, abre-a!
Vésper assim fez. Na sua frente, primorosamente arrumados na caixa enorme de madeira de cerejeira com mais idade que eles todos juntos, forrada a seda, podiam ver-se as lombadas da primeira camada de livros com as suas letras argênteas revelando os títulos: desde textos sânscritos aos Gregos e Romanos, dos Ibéricos aos Bretões, dos ensaios filosóficos mais marcantes às bíblias monoteístas, e por último ainda mais fascinante, os compêndios de ciências naturais nos quais reconheceu alguns nomes dos tempos gloriosos, a que seu pai Dérop se referia inúmeras vezes, para lhe explicar certos mistérios da vida, e mais. Vésper estava atónito, não cabia em si de tão feliz, e ao mesmo tempo dizia a Mentesúfis que não podia aceitar, era demais que este se apartasse de todo aquele tesouro que lhe levara mais de metade da vida a juntar. Falava enquanto remexia docemente os exemplares. O homem mais velho, sentado, apreciava calmamente a excitação do jovem, o brilho nos olhos de cada vez que outro título era encontrado…
— Li-os todos, alguns duas vezes — dizia o Mestre. — Agora é a tua vez, apesar de já conheceres um ou outro. Faço questão de que os aceites, ser-te-ão mais úteis, certamente. E depois, na biblioteca ficaram ainda algumas centenas de bons «velhos amigos» com os quais tenho muitas conversas para pôr em dia… — dizia com ar joco-sério Mentesúfis.
Entretanto Gui voltou, enfrentando uma recepção ruidosa por parte dos amigos. O velho mestre trazia às costas, preso por uma correia de couro, um tubo estreito em pele, que retirou cuidadosamente e entregou ao jovem.
— Espero que gostes, foi Sara quem escolheu. — Gui agradeceu curioso, retirou a pequena tampa, e do interior deslizaram duas aguarelas originais: numa estava representada uma bela caravela lusitana, e na outra a ilha de Nana vista a partir do mar, ambas ricamente executadas por Vaz, o avô de Sara. O rapaz abraçou o velho, beijou a jovem e, pegando nela, rodopiou contente, desatando a cantarolar. À sua voz juntaram-se os outros, menos os tais quatro, esses só riam como sempre. E assim todos cantaram e se divertiram, comendo e bebendo, esquecendo por completo as horas.
A noite ia alta quando finalmente cederam ao cansaço. Gui achou melhor que os quatro homens ficassem ali mesmo, até porque já roncavam. Sara e Mentesúfis foram dormir para a casa de Vésper, ao lado. O jovem cedeu a sua cama à amiga e improvisou com dois colchões de palha, o melhor que pôde, lugares para si e para o pai dela descansarem. Rapidamente se instalou o silêncio.
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A seguir…
O Conto da Orbe | Episódio 11
Vésper do Sul — “Contornos desnudos”
Sonhos que parecem esconder realidades. Mentesúfis receia por Vésper, e este por algo que não compreende.
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