Da mesma forma que os libertários sonham com a ascensão de uma contra-economia de base agorista - por não concordarem com a economia regulada pelo Estado - da mesma forma os progressistas (não gosto desse termo neste contexto, mas entendo que se uns se apropriam do termo liberdade outros podem se apropriar do termo progresso sim) almejam uma economia baseada em laços de cooperação, chamada economia solidária.
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A economia solidária, de forma bem resumida, é um movimento social, o qual possui várias instituições representativas, contudo sem ferir os próprios princípios que defendem: cada grupo é autogestionário e autônomo, não podendo ser subordinado a quaisquer agentes externos. Não existem regras formais, apenas princípios que devem ser observados por seus membros, da mesma forma que liberais acreditam na observância e aplicação do princípio da não agressão (PNA), por exemplo. Princípios estes que são norteadores do processo produtivo e das relações de trabalho estabelecidos neste tipo de organização econômica.
Cooperação, auto-gestão, valorização do trabalho humano, sustentabilidade, participação feminina, qualidade de vida, entre outros, são conceitos-chave para esses grupos. São pessoas que se unem não só para ganhar dinheiro juntas, como para buscarem de forma coletiva melhorias diversas para suas vidas, além de aproveitar para unir forças em prol de causas sociais e /ou ambientais.
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Tendo trabalhado com alguns destes grupos, percebi que, além de um espaço de produção e geração de renda, os empreendimentos de economia solidária são também espaços de construção e fortalecimento de vínculos sociais, os quais compõem uma rede de suporte muito importante para pessoas e grupos desfavorecidos. São espaços onde as pessoas se sentem valorizadas, capazes de ensinar, aprender, ajudar e terem ajuda. Onde se sentem parte integrante e importante de um espaço socialmente relevante: respeitado, digno e produtivo.
Geralmente são espaços onde trabalhadores podem levar seus filhos, têm certa flexibilidade de horários, possuem direito a voz e voto quando necessário, e frequentemente passam por capacitações de todos os tipos, custeadas tanto "pelo Estado" quanto pelas organizações da sociedade civil. Muitas cidades possuem locais específicos para comercialização de produtos oriundos de empreendimentos da economia solidária, na tentativa de fomentar o consumo solidário e consciente por parte da população.
A economia solidária não é um ato de agorismo que incentiva um mercado negro. Não é um ato de desobediência civil que reivindica um livre mercado. Não é mesmo nada disso, e por isso os liberais talvez não se entusiasmem tanto com esse movimento.
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Ao contrário do que possamos imaginar, a economia solidária não é uma alternativa ao sistema econômico dominante, e sim uma resistência ao mesmo. Não uma resistência ao lucro em si, mas à forma com a qual o temos buscado. Não uma resistência ao dinheiro em si, mas à forma como o temos superestimado em detrimento de tantas outras coisas tão ou mais importantes quanto.
E quando nos deparamos com as estatísticas mundiais da síndrome de esgotamento emocional relacionado ao trabalho (síndrome de Burnout), fica a dúvida: os princípios da economia solidária deveriam ser difundidos somente entre populações economicamente vulneráveis, ou no fundo todos nós estamos vulneráveis a um sistema econômico cada vez mais adoecedor e debilitante? Talvez por isso devêssemos todos nos entusiasmar e apoiar esse tipo de movimento.
Também considero o agorismo libertário fundamental para o desenvolvimento social. Contudo, ainda acredito que a ética e os valores humanos nas relações de trabalho são inerentes e indissociáveis à saúde mental e à soberania de cada indivíduo. E que sem desenvolvimento individual saudável, vamos sempre passar longe do nosso sonhado desenvolvimento social sustentável.
Fonte sobre os princípios da economia solidária: http://fbes.org.br/
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