Este é um assunto que eu já havia prometido para mim mesma que não discutiria mais na internet. Desde que decidi isto, evito postagens e comentários com opiniões políticas. Isto porque respeito que cada um tenha sua visão, assim como espero das pessoas o mesmo respeito.Não pretendo convencer ninguém de nada e também não quero ser convencida de nada. Entretanto, ultimamente tenho me sentido bastante pressionada a me posicionar politicamente. Como se os outros estivessem esperando o meu posicionamento político para poder se posicionar em relação à minha pessoa. Isentona, vista grossa, covarde, passiva, omissa, e por aí vai.
De uns tempos para cá, vivem me mandando sair de cima do muro.
E não importa o quanto vocês me xinguem, me pressionem e tentem me coagir psicologicamente, derramando sobre mim o seu julgamento moral. Eu vou ficar em cima do muro sim e minhas razões são muito claras para mim.
Em 36 anos de vida vivi sempre na fronteira de duas diferentes realidades. Morei em subúrbio, em bairro nobre. Fui aluna de escola pública e de escola particular (e universidades também). Andei a pé e de carro. Tive pai concursado e mãe empreendedora. Fui funcionária e patroa. Subordinada e chefe. Tive amigos ricos e amigos pobres. Fui em trance particular de playboy e batalha de rap na periferia. Pai militar e namorado menor infrator.
Enfim, a minha vida toda transitei entre dois mundos muito diferentes e com certeza o contato com o que é socialmente desigual me marcou profundamente. E desde muito nova sempre pensei em como a justiça um dia poderia ser feita. De Marx a Mises foram anos de estudo e prática na área social. Sim, eu vestia camisa do Che e ia para encontros da UJS e UNE. E sim, eu ajudei a montar um grupo de estudos liberais do EPL anos mais tarde.
E foi através da teoria liberal que eu entendi enfim o porque de eu nunca ter me sentido bem em nenhum dos dois lados do muro. Porque, sendo profundos, complexos e realistas (assim como a própria realidade), o muro nunca existiu.
Aos que me rejeitam e rechaçam pela minha suposta apatia, em verdade eu vos digo que sou extremamente incomodada com tudo que incomoda a vocês, e que jamais deixei de estudar e atuar naquilo que me desagrada. Porém, esse posicionamento que vocês me cobram, para mim não faz o menor sentido. Em cima do muro todos estamos, o resto é uma grande e perigosa alegoria. Alegoria pela qual se geram muitos conflitos e alguns até perdem a vida. Não vale a pena.
Quando as questões estruturais - que são em sua grande parte as geradoras dos problemas que mais nos incomodam - forem devidamente discutidas e reorganizadas, aí tudo aquilo a que se propõem os dois lados do muro, poderá ser efetivamente colocado em prática, comparado e avaliado. Sabemos, contudo, que não é este o interesse de ninguém, pois há séculos a base da corrupção e da ineficiência foi mantida intacta por todos os governos que por ali passaram. A estrutura da farsa e do engodo, que nos faz acreditar que algo está sendo feito por aqueles a quem apoiamos, sem nos darmos conta de que é pouco diferente do que já foi feito, perto do que sabemos que é preciso e que é possível ser feito.
Mas a alegoria é feita para não vermos isto, e sim para que possamos olhar na platéia e julgar os que estão conosco, o que não estão, e os que estão céticos diante do espetáculo.
Se isentar de um posicionamento dualista politico não é se isentar da própria realidade. Esta é bem maior do que o espectro político, e jamais deveria ser confundida com o raio de ação do Estado. Quem fica em cima do "muro", em tese consegue ver muito além do que o Estado gostaria que fosse visto. E esse é o maior medo de qualquer político, que a gente consiga enxergar as soluções que não passam pelas suas canetadas.
Estou subversivamente em cima do muro. Da mesma forma que outros estão resistentemente de um lado. Ou do outro lado reacionariamente. Cada um tem direito à sua própria escolha, ademais, não escolher também é uma escolha.
E ao contrário do que imaginamos não é o ódio dos que estão do outro lado do muro ou a passividade dos isentos que prejudica nosso projeto político. Isso faz parte do roteiro criado para nos distrair. O que nos impede de ver acontecer o projeto político que acreditamos, é justamente essa base podre do nosso sistema político como um todo. Mire sua pedra para o alvo certo.
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