Imagine você com 15 anos vivendo uma vida de pobreza numa periferia qualquer. Você se cansa dessa vida, faz um currículo (que não tem nada que interesse a empresa alguma) e entrega em 20 lugares. 2 te chamam para entrevista e nenhum te dá retorno. Os programas de aprendizagem são que nem lenda do unicórnio, todo mundo fala mas ninguém nunca viu. Você fica meses tentando um emprego. Até que consegue um bico no lava-jato, onde o trabalho é braçal e cansativo mas se você ficar até mais tarde pode ser que consiga um pouco mais de dinheiro. Você já nem gostava da escola mesmo, então você abandona os estudos e fica só trabalhando. Você quer uma bike mas nem você e nem sua mãe tem cartão de crédito, então você precisar trabalhar por meses para juntar o dinheiro e comprar à vista. Mas o lava-jato fecha. Você vive longos meses de desemprego, fazendo um ou outro bico. A energia da sua casa é cortada e sua mãe não sabe como vai pagar. Então você conhece o tráfico. E o tráfico não é um cara encapuzado segurando um fuzil. É um morador do bairro, um pouco mais velho que você, mas com uma roupa legal, um celular topzera, uma caranga tunada e uma corrente de ouro. Você facilmente se vê como ele num futuro próximo, afinal vocês são quase vizinhos, estudaram na mesma escola, são quase da mesma idade, ouvem os mesmos tipos de música, entre outras semelhanças que tornam o exemplo de vida desse cara muito mais viável de ser seguido, do que dos playboys dos bairros nobres. O esquema do tráfico é simples e funciona como uma consignação. Se a polícia te pegar você está isento de pagar a mercadoria detida, porém se você vender para alguém que não te pagar, você quem paga o prejuízo. Nunca dedurar. Nunca passar informação sobre lucros e fornecedores para outras "empresas" do mesmo ramo. Não prospectar clientes quando estiver dentro do território da concorrência. Toda profissão tem seu código de ética, e com esta não seria diferente. Horário flexível, esquema home office, serviços de tele-entrega... como um trainee da área comercial deste setor você tem muita autonomia. Fora a remuneração, que é muito maior que nas vagas formais. Em menos de 6 meses você compra a bike, um celular, renova o guarda roupa e compra um tanquinho para sua mãe. Você paga a dívida da conta de energia. Leva todo os seus irmãos para comer na praça de alimentação do shopping. Sua mãe sabe o que você está fazendo e se resigna, porque afinal você está pagando coisas que ela nunca conseguiu pagar, mesmo após uma vida inteira de labuta bruta. Você sonha com sua próxima meta, porque agora você é uma pessoa que tem metas na vida; agora você quer comprar um carro. Mas isso não é tudo, você olha pro seu chefe, aquela figura inspiradora, e pensa: uma dia eu vou ser empresário que nem ele. Vou ter minha própria biqueira.
Essa história foi só para ilustrar o que eu vejo e ouço todos os dias, mas hoje em especial fiquei mais pensativa sobre o assunto, pois visitei uma unidade da Fundação CASA onde a maioria dos internos estava ali por tráfico. Muitos deles reincidentes. E muitos deles vão reincidir na vida adulta, como temos visto acontecer tantas vezes.
Num país onde a economia formal não consegue absorver a oferta de trabalhadores, o tráfico se torna uma alternativa irresistível para milhares de jovens. No tráfico há lugar para todos: não tem idade mínima, não precisa experiência, não precisa de investimento inicial, capacitação, currículo, carteira de trabalho, exame admissional, etc. Basta querer. Chega a ser assustadora a facilidade de entrar nesse ramo.
Esta imagem pode servir de metáfora para as duas categorias de mão de obra juvenil produzida pelos arranjos sociais do nosso país: os que puderam se qualificar e os que não puderam se qualificar. Obviamente o tráfico vai encontrar um maior numero de candidatos, mais fáceis de serem recrutados, e que estão mais dispostos a arriscar sua vida e liberdade, entre aqueles que foram excluídos da economia formal desde muito cedo. E que não têm muita opção além de servir droga aos que estão incluídos na economia formal.
E assim impomos a mais uma geração um giro no ciclo da pobreza, certos de que não há muito o que ser feito.
Que cruel isso.