Não são os cabelos brancos que fazem o ancião; de qualquer velho que só tenha idade, pode-se dizer que envelheceu em vão.
Textos Budistas
Na nossa sociedade em que "somos o que produzimos"; em que o nosso valor está "no papel que desempenhamos", nas "nossas habilidades"... Parece difícil envelhecer. E, para muitos, parece difícil até mesmo lidar com a velhice dos outros. Em algumas culturas indígenas em que os saberes antigos e as tradições orientam fortemente as relações dentro da tribo, os velhos são reverenciados, são cuidados, são tratados com respeito absoluto até a hora de suas mortes. E a morte de um ancião é uma perda sentida por toda a tribo. Em nossa cultura, os velhos são tratados como alguém que está apenas a espera da morte. Você só costuma ver alguém elogiando um velho quando ele ainda é fisicamente e mentalmente ativo ou quando é apontado por ter "a alma jovem". É como se a velhice fosse pejorativa. E sortudos fossem os velhos que envelheceram o mínimo possível.
Em nossa cultura, o velho é desrespeitado, tratado com impaciência ou como digno de pena. Enquanto em algumas culturas é um privilégio viver ao lado de um ancião, na nossa alguns são até trancafiados em asilos para esperar pela morte sem que ninguém os veja. A velhice é sim uma preparação para o fim. E nós não queremos olhar para os velhos, porque não queremos olhar para a proximidade morte. A lembrança da morte e de que também vamos envelhecer nos desperta do mundo de ilusões em que vivemos mergulhados. Desperta-nos dos desejos e realizações efêmeras que almejamos, das Ilusões de consumo, das ilusões de "ascenção social, das ilusões do ego...
Essas ilusões não podem conviver com o fato de que, não importa o que façamos, o que a gente possa adquirir, a pessoa que, socialmente, possamos "nos tornar", a velhice e a morte nos aguardam no fim. Elas são a nossa única certeza absoluta. E esse é ciclo da natural vida. Um ciclo que a nossa alma conhece bem. Um ciclo real e absolutamente neutro, como é a vida... neutra. Ela só ganha uma concepção negativa quando nós rejeitamos o fato, a todo custo. Sêneca disse: "Nisso erramos, em ver a mosrte à nossa frente, como um acontecimento futuro, enquanto grande parte dela já ficou pra trás. Cada hora do nosso passado pertence a morte." Evitamos pensar no fim. Mas o fim nos acompanha durante toda a vida... ele nunca deixou de estar presente. Nós reajimos com bastante espanto à morte... mesmo à morte de pessoas bastante velhas.
Nós permanecemos olhando para a juventude pelo tempo máximo que podemos... coma falsa ideia de que isso nos faz viver um pouco mais. Para uns, entregar-se a velhice é morrer antes do tempo. Mas penso que quem morre é o ego da juventude. E quando o ego morre, só resta a nossa essência pura. A velhice é o privilégio que Deus nos concede de poder viver um pouquinho mais livre do ego e Ser Essência, ao menos no final da vida.
A nossa cultura nos ensinou que ser velho é ficar numa cadeira, esperando pela morte. Por isso, quando um velho é ativo, dizem que ele "tem a alma jovem". Mas ser ativo nada tem a ver com ser jovem. Nós podemos ser ativos na velhice... podemos realizar tudo o que a nossas capacidades nos permitirem, mas sem o peso da juventude... sem o dever de ser um "cumpridor de metas" ou um simples "desempenhador de funções".
Quem se confunde demais com próprio ego tem medo da velhice. Porque a VELHICE (o apodrecimento do ego) pra eles é a propria morte chegando antes do tempo... Quanto mais apego ao ego da juventude, menos sentiremos o lindo regresso ao nosso verdadeiro Ser, na velhice. A velhice é um processo de desfazer-se, um processo de desapego, não da vida, mas do ego e de suas mentiras. A velhice é quando o amor, a transferência dos saberes e as nossas virtudes ficam mais eminentes. É quando a proximidade da morte nos faz reconectar apenas com o que há de mais verdadeiro nesse mundo, até estarmos preparados para o nosso encontro com a maior das verdades: a existência do fim. Chico Buarque tem uma música chamada "O Velho" que fala sobre a velhice frustrada de quem viveu apenas do que era efêmero... e, por isso, na velhice não havia conselho, nem sabedoria e nem amor pra deixar. Limitava-se, assim, a terminar de "carregar o fardo da vida" até a chegada da morte. Quem nao acolhe o processo da velhice com todo o seu ser... chega despreparado pra o inevitável encontro com morte...
Para essa sociedade em que "somos o ego " em que "somos o papel que desempenhamos no mundo"... o velho que acolhe a velhice com todo o seu ser é alguém que não tem valor... é alguém que se entregou... Alguém que já morreu. Mas nós não somos o papel que desempenhamos... Nós somos o que somos... Somos alma... Somos essência pura. Nenhum papel que a gente possa desempenhar na vida tem beleza maior do que a beleza de simplesmente existir e manisfetar as nossas virtudes... Sem precisar mais desempenhar nenhum papel. Para mim, a velhice é só uma oportunidade de se conectar com uma VIDA interior que é muito mais preciosa... Uma vida interior que nós, durante a juventude, trocamos por ilusões efêmeras.
PS: Tenho 31 anos e vai demorar um pouco pra eu experimentar a velhice. Mas resolvi escrever sobre a beleza e as transformações da velhice que pude observar de perto, em alguns conhecidos.
Não apenas os bebês parecem ser "iluminados". Os velhos também. A essência deles começa a saltar de tão evidente. Dois anos antes de morrer a minha vo ficou completamente diferente. Ela levava uma vida normal.. Era bemmm ativa. Ia à praia de biquine e tomava banho de mar direto. Saía com o meu avô pra caminhar todos os dias.. (ele já estava mais fraquinho... Mas ela guiava ele) Não era nada debilitada. E ela morreu nessa fase bem ativa, simplesmente caiu e bateu a cabeça. Mesmo nessa fase ativa, dava pra ver a beleza da velhice nela. O amor puro e gigantesco ali. A simplicidade... A ausência de desejos. O acolhimento total. Quando ela fez a passagem eu senti uma energia que nunca senti em minha vida inteira. A alma foi se despedir e a energia era muito pura.
É um privilégio poder ter um velho ao nosso lado e aprender com ele. A velhice é linda... Ela faz todas as ilusões da vida se desmancharem... Ela desfaz o ego. Fica só o que é verdadeiro e real.
Ela teve o privilégio de se deixar envelhecer... Aprendi vendo ela e o meu avô envelhecerem que o ego pode apodrecer e morrer antes de nós... Deixando a gente ser mais essência pelo menos no fim da vida.