É comum, nos tempos atuais, se criticar o estudo das teorias e a obtenção de cultura geral pois, de acordo com a mentalidade de muitos, não possuem utilidade profissional. Será mesmo?
Pois bem, antes de responder a este questionamento, se faz mister entender um pouco sobre alguns processos de cognição humana.
Três são os principais meios para se chegar a alguma conclusão de modo consciente: Dedução, Indução e Abdução. Existem outros métodos lógicos, mas para este texto isto é o suficiente.
Digamos que Joãozinho percebe que um fenômeno ocorre várias e várias vezes e sob as mesmas condições. Joãozinho pode, então, induzir uma teoria para este fenômeno, como ocorreu com a teoria da gravidade, por exemplo.
Este é o processo de indução, dentro da Lógica, e deve-se ter cuidado com a probabilidade de tais fenômenos ocorrerem na formulação de uma conclusão.
A dedução ocorre de modo inverso: obtêm-se a afirmação generalizada e a aplica em casos específicos. Isto ocorre, por exemplo, no Silogismo, em que se toma duas premissas e se chega a uma conclusão, como no caso abaixo.
Premissa 1: Todos os corpos estão sujeitos à gravidade.
Premissa 2: A maçã é um corpo.
Conclusão: Logo, a maçã está sujeita à gravidade.
Segundo entendo, dedução pode ocorrer tanto de modo formal, se chegando nela por meio de uma indução feita de modo consciente, lógico, quanto de modo informal, fazendo-se uma “indução”¹ de modo inconsciente para se chegar àquela.
Este processo de se chegar a uma dedução por meio de uma indução e vice-versa, dentro das mais diversas ciências, pode ser denominado Método Indutivo-Dedutivo, e é de suma importância para o progresso das mais diversas atividades humanas.
José Manoel Jansen, em sua monumental obra (2014)², afirma que existe também o método abdutivo (hipotético). Neste processo, se toma os efeitos para se chegar à(s) causa(s), e é muito importante na formação de hipóteses, como ocorre na prática clínica, por exemplo, tendo relevante aplicação prática.
Estes são alguns processos lógicos.
Na prática, boa parte de nosso aprendizado ocorre de modo inconsciente, muitos por meio da Heurística. É comum que uma pessoa enfrente alguma pergunta e, logo em seguida, mergulhe em busca de uma resposta. Cansada deste processo de pesquisa, esta pessoa acaba por largar e focar noutras ideias.
Do nada, surge uma possível resposta. Esta é a parte central da Heurística, a intuição. Conforme a obra citada, cabe à pessoa julgar esta ideia, seja ignorando, ridicularizando ou aceitando a mesma como correta.
Foi desta forma que, inclusive, um importante químico chegou à formulação de uma teoria sobre as ligações de carbono, após um sonho com átomos em movimento, a “dançar”, como ele dizia.
Em resumo, são cinco etapas: Pergunta, Imersão, Incubação, Intuição e Verificação.
Segundo entendo, a formação desta ideia acontece da seguinte forma. Toma-se alguns pensamentos diferentes, retira-se as características de cada um destes e se forma um novo pensamento, com características diferentes daquelas encontradas nos pensamentos anteriores, tudo isto de forma inconsciente, mas rápida.
Este é um dos motivos pelos quais critico este pragmatismo exacerbado, muitas vezes cultivado nas instituições de ensino e na vida cotidiana. A cultura geral não é inútil, muito pelo contrário, como se pode ver nas grandes descobertas dos mais diversos cientista. Até mesmo Newton foi impulsionado em suas pesquisas graças aos seus interesses de Alquimia (que não era nem de longe uma ciência, no sentido moderno do termo).
As teorias, quando bem formuladas e utilizadas, podem auxiliar de forma grandiosa o desenvolvimento de técnicas profissionais, bem como auxiliam a cultivar uma forma de pensamento mais científica, evitando-se muitos erros de cognição. Não somos meros robôs, devemos entender o funcionamento de nossas ferramentas, pois assim podemos aprimorá-las, e não meramente copiar o que os outros fazem.
Portanto, não basta ler, deve-se meditar o que se lê e meditar aquilo que foi meditado. Além de tudo isto, deve-se descansar, ter momentos de lazer para relaxar o cérebro e “incubar” os pensamentos.
Por último, não se deve temer contestar os pensamentos da maioria³, pois muitas vezes a maioria está errada, e, principalmente, os próprios pensamentos, pois é assim que se progride na estrada do conhecimento.
¹ Tenho certas reservas ao uso deste termo, neste caso, por não se tratar de um processo lógico, mas algo semelhante à intuição.
² O pensar diagnóstico: medicina baseada em padrões.
³ Foi assim que aconteceu com Einstein e com Niels Bohr, por exemplo.