A grande maioria dos leitores deve saber que Platão escrevia em forma de diálogos e não textos corridos dos quais estamos acostumados. Nestes diálogos ele expõe seu pensamento nas palavras de Sócrates, e, é ele que nos dirá a visão de Platão acerca do amor.
No primeiro texto desta série, eu trouxe o mito do andrógino (que pode ser lido aqui), retirado do livro de Platão “O Banquete”, após as palavras de Aristófanes, Agatão faz seu discurso sobre o que pensa ser o amor (não vou explanar em detalhes pois é bem próximo a visão de Sócrates, com algumas ressalvas).
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A primeira questão para Sócrates é: o que é o amor? Antes de qualquer coisa precisamos saber o que ele é, então, ele nos define o amor como sendo a busca da beleza e do bem. Após isso ele então nos diz:
Esse então, como qualquer outro que deseja, deseja o que não está a mão nem consigo, o que não tem, o que não é ele próprio e o de que é carente; tais são mais ou menos as coisas de que há desejo e amor, não é? (PLATÃO, 2000 p.32)
Ou seja, o amor é desejar as coisas que não se tem. Não amamos o que já possuímos e sim o que não temos ou o que queremos ter para nós. Além disto, todos desejam o que é melhor, ou pensam ser melhor, ninguém escolhe o pior, sendo assim, o amor é a busca pelo belo e pelo bom.
Vou aprofundar um pouco mais neste assunto, você leitor tem um cachorro, no presente você não o ama pois o tem ali, não existe a necessidade de tê-lo ao seu lado pois ele já está ali, mas você quer tê-lo no futuro, até o último dia de sua vida, mas como o futuro ainda não existe e você não “possui esse momento”, é exatamente isso que você ama, o que você ainda não tem.
Não generalizando, mas o ser humano é exatamente assim, quando desejamos conquistar alguém, damos atenção, presentes, enfim, fazemos todo o possível para conquistar, mas muitos, muitos logo após conquistar, deixam de lado ou já não dão a mesma atenção devida, ou, a mesma dedicação para conquistar. Talvez, mas apenas “talvez” daí surja o conceito do senso comum de: “só damos valor quando perdemos”.
Para Platão inicialmente o amor vem da nossa sensibilidade, é o desejo sexual, é a beleza do corpo, a vontade (instintiva) de procriar, é o desejo inconsciente do belo, é uma forma de se eternizar, pois filhos são uma forma de sermos eternos.
Mas quando perdemos o desejo por outro corpo, começamos a desejar outros corpos, partimos do particular ao universal, portanto Platão nos diz que devemos continuar sempre pela busca do belo, pois a beleza apenas é parte deste conceito. Em sua visão nunca conseguiremos alcançar o conceito em vida, mas sua busca se torna necessária.
Mediante essa busca pelos conceitos universais, do bom e do belo neste caso, que surge o termo errôneo ou equivocado de:
Amor Platônico
Este termo, no senso comum, é usado para designar o amor sem qualquer tipo de interesse entre casais, seja ele sexual ou material. Pode ser também o sentimento não correspondido, ao qual a pessoa que “ama” nunca declarou seu amor, neste caso seria algo distante ou impossível, mas ambos os conceitos estão errados e explicarei por quê.
Para Platão, existia o mundo sensível, o que vivemos, e, o inteligível, o mundo das ideias (já escrevi no Steemit sobre: aqui). Para ele, a busca pelo amor verdadeiro não se dá no mundo sensível, apenas no inteligível, pois neste mundo apenas temos a “ideia” de amor-perfeito, sem brigas e traições.
Pois o mundo sensível é corruptível, instável. Já o mundo inteligível é imutável e atemporal. Portanto, na visão de Platão, não apenas o amor, mas qualquer conceito universal como o bom, o belo, a justiça, a virtude, entre outros, apenas podem ser alcançados no mundo inteligível e não no sensível.
Por fim, neste mundo nunca alcançaremos o “amor platônico” apenas após transcendermos, isto na visão de Platão.
Obrigado pela leitura, espero que tenham gostado e até a próxima!
REFERÊNCIAS:
Versão eletrônica do livro “Banquete”
Autor: Platão - Créditos da digitalização: Membros do grupo de
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