Em tempos do reinado da razão científica, do "penso, logo existo", a mudança de opinião é frequentemente mal vista. A grande herança do recente avanço da ciência para a cultura popular é um modo de pensar baseado na linearidade e na disputa de opostos pela veracidade.
Buscamos um modo de pensamento e expressão lógico que conecte todos os elementos em um sistema controlado. Ou seja, nada pode ficar sem resposta ou desconectado da lógica do sistema. E, se isso acontecer, o sistema todo tem sua validade prejudicada. Me lembro de uma situação que pode exemplificar bastante. Eu estava assistindo a um seminário sobre uma certa teoria e fiz uma pergunta contando sobre um fato que apresentava uma lógica diferente da que o seminarista estava explicando, e ele me respondeu dando risada: "assim você acaba com a minha teoria". Ou seja, algo que não se conectava a teoria apresentada, ou se contrapunha, tinha o poder de invalidá-la complemente.
A disputa de opostos também é chamada de automatismo concordo/discordo. É uma não consideração de que duas coisas podem ser igualmente válidas, sem que a existência de uma elimine a legitimidade da outra. Exemplos muito comuns acontecem nos relacionamentos. Frequentemente temos sentimentos antagônicos pelas pessoas. Um casal pode sentir paixão um pelo outro e, em alguns momentos, também sentir raiva. Não é comum que duvidemos dos nossos sentimentos positivos por outra pessoa quando também temos sentimentos negativos por esta mesma pessoa. Outro exemplo: este casal pode sentir vontade de ficar juntos e, ao mesmo tempo, querer sair com os amigos.
Por isso, chamo de "contradição" isso que prova que somos complexos. Que, na verdade, não elimina tudo o que eu fui e pensei anteriormente mas, soma, atualiza, renova. Isso significa liberdade porque abre o leque das possibilidades de existência, em formas que podem até parecer demais difusas, desconexas, caóticas e complexas para nossa racionalidade científica mas, que legitimam nosso modo mais humanos de ser.
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