Minha filha nasceu em 2015 num parto normal que durou ao todo umas 4 horas. De dor não chegou a ter duas horas, mas experimentei ali, sem anestesia, a tal “Pior Dor Do Mundo”. Não tem como explicar como foi todo o processo, eu lembro muito pouco já que estava mergulhada em ocitocina pura e algum mecanismo instintivo na mulher faz com que a dor seja logo esquecida para que não haja traumas e tal. Mas posso afirmar que sim, dói. É uma dor de outro mundo, parecia que ou eu ia morrer ou ia enlouquecer. Aquela frase do meu pai ficava martelando na minha cabeça. Eu pensava: “Será que vou desmaiar agora?”
Mas não desmaiei, não morri e não enlouqueci. Fui carregada num mar hormonal em conjunto com um instinto muito louco. Eu queria parir, eu sentia uma necessidade insana de aumentar aquelas contrações que começaram tranquilas, com leves pressões na lombar e foram chegando num ritmo frenético e sem aquela cena cinematográfica de seguir um padrão de 5 em 5min.
Chegou um ponto em que não conseguia mais me mover. Ao mesmo tempo em que eu queria ter logo minha filha em meus braços, eu tinha uma vontade imensa de me enrolar na cama e dormir para esquecer tudo aquilo.
Quando chegam os famigerados 10cm de dilatação chega então o ápice, você não só sente as contrações lancinantes como também precisa fazer um esforço sobre-humano que é empurrar, fazer o próprio corpo trabalhar para expelir o filhote. E tem sangue e líquido amniótico. Muito.
E tem também o círculo de fogo, que é basicamente o momento em que a cabecinha do bebê está saindo. E é tudo isso que você está imaginando mesmo! Algo sai e rasga literalmente seu corpo. Eu me revirava e me sentia um bicho. Quando senti a última e mais animal contração, empurrei com o restante de força que tinha e finalmente a neném saiu. Nesse momento a dor subitamente para, sem ter uma curva sinuosa entre a dor e o bem estar, fui transportada automaticamente no mundo materno com força e muito sangue.
Esta experiência enraizou-se em minha mente de um jeito que durante estes mais de dois anos passados, não tem um dia em que eu não relembre tudo novamente.
E digo, apesar de tudo, que vale muito a pena, que a dor faz parte e que, acredito eu, quem puder passar por uma experiência assim na vida, não vai se arrepender.
Me fiz muito mais forte depois daquela noite e só sinto gratidão por tê-la vivenciado.
Obrigada por ler até aqui. Abraços, Carol! <3
Imagem: "Birth" - Alex Grey