Sobreviver ao próprio inverno
Frio que vem de dentro
Frio que queima sem piedade
Passos em lagos rasos
Que não passam de poças
Minto para que possa passar
Minha ave não pousa
Continua voando, procurando
Algo sem saber o que é
Sente coisas que não sabe o que são
E tudo sem saber
Meu sabiá que já não canta
Por vergonha de sua voz
Que é a mesma de sempre
O meu poeta que não versa
Com o amor não quer conversa
Já não acredita em lagos rasos
Já não vejo
A criança que brincava de tentar
Que ao errar aprendia
Mas não se arrependia
O erro que não me perdoa
O acerto que não me encontra
Tristeza que não me perde
O melodrama engana
Cega o olho do otimismo
Cala a voz da verdade
Prejudica a audição
Cria de mim uma nova versão
Pela qual tenho aversão
Desencontro-me do eu
E não sei onde procurar
Ou talvez até saiba
Mas tenha medo
Do que posso encontrar