Se você nasceu antes de meados dos anos 90,
é provável que a quantidade de registros da sua infância seja bem limitada. Eu por exemplo tenho alguns álbuns antigos na casa da minha mãe. Lá eu posso ver um número considerável de fotos de quando eu era bebê, isso porque meu pai adorava fotografar, então os registros foram constantes, mas nem se comparar a quantidade de fotos e vídeos que fazemos de nossos filhos hoje em dia.
Até poucos anos atrás, eu costumava fazer uma grana prestando serviço de suporte técnico para dispositivos da Apple. Um dos meus clientes na época era um casal com muito dinheiro e cheio das últimas novidades da maça. O filho deles deveria ter pouco mais de 4 anos de idade na ocasião.
Um dos problemas que a mãe enfrentava, estava em como lidar com os backups das fotos e videos realizados por ela, que usava uma Canon 5D MK II. Sim, ela registrava cada minuto do filho com uma câmera com mais de 21.1 megapixels, em RAW, gerando arquivos enormes (aprox. 25Mb cada foto). Eram milhares de fotos, tanto que o iPhoto entrava em colapso ao tentar rodar o banco de dados do aplicativo. Ela precisava de um app profissional. Eram pilhas de HD externo para dar conta de salvar tudo e mesmo assim aconteciam problemas, já que fazer backup disso tudo via wi-fi era demorado e constantemente interrompido por ela.
O ponto é, era muita foto desnecessária que precisava ser descartada.
Como eu lembro da minha infância
Eu lembro pouco da minha infância. Para mim, tudo parece um sonho, algo que não vivi de verdade. Não sei dizer qual a minha lembrança mais antiga, talvez alguma coisa com 4 anos de idade. Ah e tudo naquele tom desbotado e meio fora de foco. Videos então, zero. Nenhum que possa mostrar como era minha voz ou como eu andava.
Antigamente, devido a limitação imposta pelo número (e custo) de fotos que cabiam em um rolo de filme (12, 24 e até 36), tínhamos que ter um motivo especial para sair clicando. Um aniversário, uma viagem, um momento de lazer em família. Hoje, qualquer coisa nova que meu bebê faz, eu e minha esposa sacamos o celular para registrar.
É foto dela rindo, trocando de roupa, tomando banho (clássica ter ao menos uma para passar vergonha quando adulto, a Joana deve ter umas duas dúzias somente no meu celular), passeando de manhã (toda manhã uma foto nova, igual a do dia anterior) e assim segue.
Como será para ela
Quando criança, nossa imaginação corre solta, então é perfeitamente normal lembrar de coisas que não aconteceram de fato. Realidade e imaginação parecem ocupar o mesmo espaço na memória.
Para ela, imagino que se lembrará da infância com menos fantasia. Vai ficar fácil para ela conferir as inúmeras fotos, videos e reconstruir as memórias com mais detalhes. Sabe aquela sensação de lembrarmos de um local da infância e acharmos que era gigante, mas quando voltamos lá anos depois, tudo parece que encolheu? Então, não sei se para ela vai funcionar assim. Além disso, as cores, os detalhes. Tente ler o que estava escrito na capa de uma revista em cima da mesa em uma foto revelada há mais de 30 anos. No caso daquela minha cliente, com a resolução e lente da câmera que usava para registrar seu filho, é capaz até de dar zoom na formiga andando no gramado.
E eu continuo desenhando
Eu tenho medo de esquecer. Meu pai morreu em 2014 devido as consequência do mal de Alzheimer. Eu vi a mente dele apagando, como um computador sendo formatado. Era triste olhar nos olhos dele e ver que não fazia ideia de quem eu era. Pior, ele morreu sem poder olhar para a trás e se sentir grato e orgulhoso pela vida que teve.
Tristeza a parte, eu comecei com esta história de registrar em desenhos tudo de legal que eu vivo hoje em dia. Seja no registro semana a semana da gravidez no azulejo, ou então usando um caderninho pequeno para ilustrar dia após dia de alguma viagem bacana.
No caso da Joana, eu resolvi criar um caderno de desenhos onde registro de vez em quando coisas que acho marcante. Junto, eu deixo um pequeno texto falando diretamente com ela. Meu objetivo é estar prevenido de que se qualquer coisa venha acontecer comigo, ela saberá como o pai dela se sentia. Algo que creio será de muito valor na vida dela.
É importante termos registros da nossa história. Para a nova geração, a tecnologia irá criar uma nova forma de lidarmos com as lembranças. As fotos da Joana estão aqui no Steemit, no Instagram, no Facebook, no Whatsapp.
Quem sabe um dia, tudo isso possa ser montado num ambiente de realidade virtual e ela poderá “entrar" novamente nestes momentos. Hoje, a quantidade de informação a ser absorvida é tão grande, que é natural nos apoiarmos em tecnologia para dar uma força para a memória.
Seja como for, filha, você não estará livre das minhas lentes ou lápis, e minha memória estará viva para quando quiser consultar.
Um bom dia para todos!