Sair de uma cidade do interior para morar em uma capital, mudou minha percepção sobre minha relação e contato com a natureza.
Fazendo um aprofundamento sobre o texto que publiquei há tempos aqui - Nostalgia Verde, onde comentei a relação afetiva que criamos com a natureza desde nossa infância, faço um link para outro tema - A relação do cidadão contemporâneo com a cidade e a utilização dos espaços públicos para o uso de hortas comunitárias.
O tema em si é amplo e já vem sendo estudado e analisado em diversas instituições, por diversos estudiosos, mas não é algo para ficar e nem está ficando preso apenas no universo acadêmico, já é uma realidade em diversas cidades do mundo a fora - uma tendência.
A agricultura urbana consiste em utilizar espaços da cidade, muitas vezes abandonadas pelos órgãos públicos, afim da utilização por meio de hortas e quintas onde a própria população faz uso do espaço, limpando, arando, semeando, plantando e por fim colhendo.
Sai de uma cidade do interior onde a casa de minha mãe tem um quintal grande, pés de couve, taioba, salsinha, cebolinha, erva-doce, tudo tiramos do quintal, para vir morar em um apartamento de 70m² na capital.
Esta mudança mudou minha percepção drasticamente, comecei a sentir abstinência de terra (comentei para uma amiga dando risada, mas nervosa).
Sendo assim, comecei a procurar alternativas, trazendo cada vez mais plantas para dentro de casa e procurando cidade a fora, maneiras de continuar a ter este contato com a terra. Logo, algo que parecia muito "gringo" e utopico, começou a brotar na capital, as hortas e ocupações verdes.
Alguns cidadãos começaram a botar em prática as técnicas de agricultura urbana e ocupação verde. Atualmente em Curitiba já temos diversas hortas espalhadas pela cidade e outras que estão sendo feitas, botando em prática a ideia da produção de alimentos em áreas urbanas.
Uma delas a qual após sofrer uma notificação/repressão da prefeitura para retirá-la do local ganhou reconhecimento internacional da ONU ao projeto Feed Your City (Alimente sua Cidade).
A horta comunitária do Cristo Rei, iniciada pela população local, teve início após discussões sobre o aproveitamento de uma calçada do bairro, porém, a legislação não permitia o uso local com estas práticas, onde considerava "entulho". Após diversas manifestações e conversações, entre população e prefeitura, o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc) estuda a implementação destas práticas de forma regular.
Link da página oficial da horta no Facebook:
https://www.facebook.com/hortacristorei/
Outras hortas/parques/quintais estão sendo fomentadas pela cidade em outros bairros. Uma vez caminhando pela cidade, encontrei o parque Gomm em um bairro nobre da cidade, próximo de um shopping de luxo, o local era para ter sido derrubado e transformado em uma área de acesso ao shopping, mas a população resistiu e transformou o local em um parque, através da consciência da ocupação.
Link da página oficial do parque:
https://www.facebook.com/parquegomm/
Outra praça construída pela resistência e esforço coletivo da população na cidade é a Praça de Bolso do Ciclista, localizada próxima a boêmia rua São Francisco na região central de Curitiba. A praça ganhou este nome pelo grupo de ativistas responsáveis pela reconstrução e novo uso do terreno baldio, em sua maioria ciclistas que também lutam por uma nova visão no "uso da cidade" - mudando a percepção sobre o trânsito e as novas possibilidades de locomoção urbana.
Uma vez conversando com um dos idealizadores do projeto, Fernando Rosenbaum ele me disse uma frase inspiradora - "Sua cidade também pode ser seu quintal!". Acho que essa frase sintetiza toda paixão e luta da população/organizadores/ativistas que fazem dessas práticas uma filosofia de vida.
Como disse acima, mudei muito minha percepção sobre a Cidade devido a minha mudança, "sair do mato e vir pro concreto" (ainda que Curitiba seja chamada de capital verde) - mudou minha relação, no caso, passei a amar mais o verde! A me entender como parte integrante dele, parte integrante da cidade, do parque, da calçada, do todo.
Me entristeço ainda ao verde pessoas com quintais e jardins que podem ser utilizados botando cimento e feliz por ver pessoas quebrando o concreto, limpando terrenos baldios e fazendo quintais!
Em um mundo onde ainda temos uma parte da população morrendo de FOME, gerar uma fonte de alimentação na cidade, de forma orgânica, coletiva e gratuita chega a ser algo anarquista quase utópico, mas já está virando uma realidade!
Lembrando que, mesmo que em sua cidade não tenha estas atividades e que more em um local pequeno, sempre há uma alternativa na sua sacada ou janela!
Deixo aqui um link de um material que achei bacana em relação a criação de Hortas Urbanas:
http://polis.org.br/wp-content/uploads/Hortas-Urbanas-FINAL-bx-site.pdf
Agradeço sua leitura e caso você conheça algum projeto semelhante ou queira compartilhar sua experiência de modo geral, compartilha!
Abraço.