Recordar é viver. No final de 1994, em San Franscisco, ouvi uma palestra de Nicholas Negroponte que foi uma espécie de ponto de inflexão em minha vida.
Negroponte é um dos fundadores do Media Lab do Massachussets Institute of Technology. Irreverente, otimista, brilhante, esse visiionário tem dedicado sua vida à divulgação dos conceitos que norteiam a vida digital – inclusive de forma bem prática: ele criou e preside a OLPC – One Laptop Per Child, fundação que trabalha pela a inclusão digital de crianças em países em desenvolvimento.
Naquele agora já tão distante outubro, no final de uma linda manhã de outono – e como são lindas as manhãs de outono em San Francisco! – ele falou sobre algo novo, revolucionário e que afinal ganhara um nome próprio (até, então, por exemplo, eu discutia muito os conceitos que embasavam aquela novidade com o pessoal da Agência Estado, cliente da Souza Aranha, onde eu era o diretor de criação, usando a expressão “information superhighway”): Internet.
Para todos que estávamos naquele salão do Moscone Center, ficou a certeza: a Internet ia mudar o mundo. O problema era quando. Negroponte, apesar da sua fama de iconoclasta, falou em não menos de 5 anos.
Mas a maioria do resto de nós foi à luta imediatamente.
Dois meses depois, saí da Souza Aranha e montei a Intermarketing. E, ao final dos 5 anos preconizados pelo Negroponte, estava – eu e milhares de pessoas em todo o mundo – às voltas com business plans e com startups (engraçado, não se usava muito o termo naquela época).
Tudo parecia nos eixos, o futuro ao alcance da mão.
Aí, veio o estouro da bolha dot-com (ou dot-con, como alguns chamaram). E parecia que estávamos de volta ao início. Mas não foi o que aconteceu. Após recolhermos mortos e feridos, que houve muitos, a Internet retomou sua velocidade acelerada de crescimento.
Para quem viveu de dentro toda essa movimentação, o momento atual tem um claro gosto de déjà-vu. Caso você não tenha acordado de um sono profundo de meses ou ano, já percebeu que outro movimento, com a alavanca do blockchain, está mudando rapidamente o mundo.
Criptomoedas como o Bitcoin e plataformas como o Ethereum estão transformando e até mesmo destruindo indústrias antiquíssimas, começando por aquela que talvez seja a mais fundamental de todas: o dinheiro.
Não se engane. Qualquer um que pense que o Bitcoin e outras criptomoedas são apenas uma moda passageira está ocupando a mesma categoria das pessoas que pensavam que “aquela coisa da Internet” era apenas uma moda dos anos 90.
Mas também não tente mergulhar às cegas: em algum momento virá o famoso “freio de arrumação”, pois há uma nova e inevitável bolha em crescimento.