Sequência da jogada do Didi no filme "Os Trapalhões e o Rei do Futebol"
(print direto do filme )
Você viu os dois posts anteriores a este? Se não, sugiro que os veja antes de prosseguir uma vez que este já é o terceiro texto sobre o tema e há uma sequência lógica entre eles.
No primeiro post, parte 1, apresento um vídeo de 2009 em que Neymar, da lateral do campo de futebol, dá um balão para dentro da área e corre para matar a própria bola lançada e marcar o gol. No segundo post, parte 2, vendo o vídeo frame a frame, fiz uma análise física mais detalhista da suposta jogada.
Agora, na parte 3, lembro que no cinema nacional, ou seja, na ficção, esta jogada já foi realizada. No filme “Os Trapalhões e o Rei do Futebol” – 1986, Didi, personagem oficial de Renato Aragão, é um roupeiro de um time de futebol que entra para jogar na linha de ataque colocando ninguém menos do que o rei Pelé no gol. E, no melhor estilo pastelão, típico dos filmes dos Trapalhões, cobra um escanteio e corre para ele mesmo cabecear a bola e marcar o gol da vitória. Final feliz, como sempre, com Didi herói, também como sempre. Confira aqui a cena "divertida" mas bem tosca, com cortes secos de câmera, deixando por conta da imaginação de quem assiste criar o realismo necessário para embarcar de vez na história.
Uma pitada a mais de Física: as duas parábolas de mesmo alcance horizontal
Aproveitando para aprofundar um pouco mais o tema, num lançamento oblíquo de um objeto qualquer, livre da ação da resistência do ar, como o de uma bola de futebol por exemplo, é possível demonstrar que para 45o o alcance D — ou distância horizontal atingida — é máximo (Dmáx). Em outras palavras, para a mesma velocidade inicial V0, este é o ângulo em que o objeto (no caso, a bola) vai mais longe.
Demonstra-se ainda que, para lançamentos inclinados em ângulos complementares, ou seja, ângulos θ1 e θ2 cuja soma dá 90o (θ1 + θ2 = 90o), os alcances (horizontais) são iguais. Mas estas duas trajetórias parabólicas, apesar de mesmo alcance, são bem diferentes. Numa delas o objeto atinge altura bem maior, enquanto na outra a altura atingida é bem menor. No caso da parábola de maior altura, o tempo de voo é consequentemente maior, apesar do alcance horizontal ser o mesmo.
Para realizar a tal jogada do Neymar (no vídeo viral) ou do Didi (no cinema), em tese, um jogador deveria lançar a bola numa trajetória parabólica de máxima altura, onde a bola pudesse voar mais alto, gastando mais tempo. Assim o jogador também teria mais tempo para dar o pique até a área para reencontrar a bola.
A figura a seguir ilustra as trajetórias acima descritas. Em vermelho temos a parábola de máximo alcance. Em laranja e em azul as duas parábolas de mesmo alcance, menor que o máximo, e com a altura máxima atingida pelo objeto lançado realizando a parábola laranja que, consequentemente, demanda mais tempo de voo da bola
Vamos imaginar que um jogador conseguisse lançar a bola pela trajetória de máxima altura, a trajetória laranja da figura acima. O alcance seria algo em torno de D = ΔS = 37,5 m como estimamos no post anterior.
Alguns jogadores de futebol têm explosão para conseguir dar piques com velocidade em torno de 30 km/h, pouco mais de 8 m/s. Nesta rapidez, para percorrer os 37,5 m até a área, um jogador gastaria (sem contar tempo de reação e aceleração) um intervalo de tempo de cerca de Δt = ΔS/V = D / V = 37,5 m / 8 m.s-1 = 4,7 s.
Se o jogador conseguir chutar a bola com velocidade V0 e ângulo de inclinação θ corretos para que ela, a bola, realize uma parábola bem alta, o que no jargão do futebol significa dar um balão bem alto, talvez possa conseguir pouco mais 5 s de voo da bola para ter tempo de correr e reencontrá-la lá na frente, na área, depois do pique. Mas tem que ser ninja! Velocidade, ângulo, pontaria, tudo muito certinho! E tudo muito crítico e bem próximo dos limites humanos. Apesar de fisicamente possível, a jogada é complicada de ser realizada por um humano.
Qualquer hora dessas, com calma, calculo os parâmetros do lançamento ideal para realizar a tal jogada para ter melhor noção quantitativa de quão perto (ou talvez longe) esta jogada está da real capacidade humana.
Abraço do prof. Dulcidio. E Física na veia!