Luis Roberto de Mucio, jornalista e locutor esportivo Fonte
É muito provável que você conheça o Luís Roberto de Mucio da TV. Ele é jornalista e locutor esportivo da Rede Globo. O que talvez você não saiba é que ele é meu conterrâneo daqui de São João da Boa Vista, interior de São Paulo.
Ele vem narrando vários jogos da Copa do Mundo de 2018 na Rússia e já está bastante conhecido pelo seu marcante bordão “Sabe de quem, sabe de quem?” quando algum jogador faz gol.
E Flavia de Almeida Dias? Certamente você não tem a menor ideia de quem seja. Falei rapidinho sobre ela neste post. Não sei se você leu. E, se leu, não sei se guardou o nome dela. Agora quero falar um pouco mais sobre ela.
Flavinha, como a chamo, é uma querida ex-aluna que atualmente faz pós doutorado no Niels Bohr Institute em Copenhague, na Dinamarca. E é pesquisadora no CERN – Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear. Hoje ela está ligado ao experimento ATLAS - A Toroidal LHC ApparatuS do LHC – Large hadron Collider. Já fez parte da equipe de pesquisadores do CMS - Compact Muon Solenoid, outro importante experimento do mesmo acelerador de partículas.
Até pouco tempo Flavinha era pesquisadora na University of Edinburgh, Escócia. Também já pesquisou pelo Caltech – Instituto de Tecnologia da Califórnia. É incrível como, ainda tão jovem, Flavinha já tenha uma respeitável carreira internacional!
Depois de ser minha aluna no ensino médio aqui no Anglo São João, em São João da Boa Vista, graduou-se em Física pelo IF/USP - Instituto de Física da USP, São Paulo. Ainda muito jovem, mas com um trabalho original e de alto nível sobre partículas exóticas¹, foi direto para o doutorado no IFT - Instituto de Física Teórica da UNESP.
No dia em que Flavinha defendeu a sua tese de doutorado, recebi e-mail do prof. Dr. Ronald Shellard, físico teórico e diretor do CBPF – Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, meu amigo. Ele fez parte da banca examinadora e estava me cumprimentando pela excelente aluna que, em sua formação básica, passou pelas minhas mãos. A mensagem do prof. Shellard era tão empolgada que logo vi que Flavinha estava decolando para uma brilhante carreira internacional.
Em agosto de 2012 Flavinha participou do 69th Scottish Universities Summer School in Physics, na Escócia, onde apresentou seu trabalho de pesquisa original. E foi premiada pela qualidade dos estudos e da apresentação. Todos os trabalhos neste evento foram julgados por uma comissão de peso, com especialistas muito importantes na área de Física de Partículas. Flavinha recebeu o prêmio de melhor trabalho neste encontro.
Mas ... espera aí... o que o Luis Roberto de Múcio tem a ver com tudo isso, exceto pelo fato de ele também ser sanjoanense? É que, em clima de Copa do Mundo, quero usar o bordão dele para, com a mesma empolgação de um golaço, perguntar: A Flavinha recebeu o prêmio internacional “sabe de quem, sabe de quem”?
Peter Higgs²! Ele mesmo, o pai do Bóson de Higgs, a partícula teórica procurada nos aceleradores desde os anos 1960 mas só confirmada nos experimentos ATLAS e CMS no LHC em 2012, meio século depois. O prêmio foi entregue pelas mãos de um dos mais importantes cientistas de todos os tempos!
Flavinha e Peter Higgs, no evento escocês
Quando a Flávia me contou sobre o prêmio e me mandou a foto acima, eu disse para ela: “você sabe que acaba de ganhar um prêmio e tirar uma foto com um Nobel de Física que está por vir, não sabe?” Ela respondeu enfaticamente que sim! E ambos acertamos! Um ano depois Peter Higgs foi laureado com o Nobel de Física 2013! (veja detalhes no post anterior)
Fiquei radiante com o prêmio! É uma jovem! É brasileira! E foi minha aluna! Sim, eu sou um professor babão!
No começo deste ano Flavinha veio visitar os pais aqui em São João. E marcamos um café que, com tanto papo bom acumulado, durou boa parte da manhã e invadiu o horário de almoço. O que sempre me encantou na Flavinha é que ela tem brilho nos olhos quando fala do trabalho. Esse brilho está sempre aceso. Certamente, além do inegável talento e de incansável dedicação, a paixão pela Física é o ingrediente que faz a diferença e a torna uma pesquisadora de alto nível.
Ciência X Futebol
Aproveitando o clima de Copa do Mundo, o bordão do Luís Roberto, o talento futebolístico de Neymar e a genialidade científica da Flavinha, abro algumas questões.
Flavinha é uma craque da Ciência. Quando recebeu o prêmio de Higgs, tinha mais ou menos a idade que Neymar tem hoje. Mas ela não apareceu em destaque na TV. Nem ganhou manchetes na grande mídia. Por que todo mundo sabe quem é Neymar mas quase ninguém conhece a Flavinha. Por que Neymar está na mídia como jovem gênio mas Flavinha e tantos outros jovens talentos da Ciência não têm o mesmo espaço e o mesmo reconhecimento? Por que tanta assimetria? Para a sociedade, Futebol é mais importante do que Ciência?
Quero deixar claro que não estou sugerindo que Neymar e outros talentos do esporte não mereçam espaço e reconhecimento. Questiono a enorme assimetria de tratamento e valorização. Uma sociedade que não prima pelos seus diversos valores importantes vai pagar um preço alto, não vai? Já sentimos isso na pele e no bolso, não sentimos?
Deixo as perguntas acima como reflexão para você que é leitor(a) inteligente. E ficarei feliz e honrado se me der o prazer do seu comentário, logo abaixo, no espaço livre onde a nossa conversa pode render. A discussão é das boas, não é? Vamos nessa?
Finalizo o post de hoje indicando a leitura do artigo “Direita, Esquerda e indecisos, o Brasil precisa de Ciência” publicado em Carta Capital em 21/06/2018. Tem tudo a ver com o tema da discussão que estou propondo.
Abraço do prof. Dulcidio. E Física na veia!
¹ Partículas exóticas são subpartículas atômicas não previstas pelo Modelo Padrão mas previstas por teorias que vão além deste modelo. O LHC ainda não encontrou sinais confiáveis destas partículas, provavelmente porque ainda não opera em condições para tal. Com o upgrade que sofrerá até 2016, tornando-se o HL-LHC (veja post anterior), os cientistas acreditam que estas partículas possam começar a aparecer nos experimentos.
² Peter Higgs é o idealizador do mecanismo que explica a discrepância entre as massas de diversas partículas subatômicas a partir do bóson que leva o seu nome, o Bóson de Higgs, confirmado por dois experimentos do LHC em 2012. (veja post anterior)