Hoje venho contar de um nome que até hoje é lembrado com respeito e admiração na minha região: Antiocho Pereira, que também ficou conhecido como O Herói de Cruz Machado.
Típicos imigrantes poloneses no Paraná
Muitos não imaginam, mas a saga de muitos imigrantes europeus foi terrivelmente sofrida, especialmente quando falamos dos eslavos. As condições na terra natal eram precárias e, no novo mundo brasileiro, não eram melhores. Grande parte dos imigrantes não tinha instrução, eram pessoas simples que sonhavam encontrar dias melhores.
Os poloneses que aqui chegaram passaram por dificuldades das mais variadas. As condições de higiene, por exemplo, eram praticamente nulas e facilitavam a propagação de doenças. Chegando ao Brasil, os imigrantes tinham de se deparar com um mundo novo inexplorado, um mundo por criar com as próprias mãos. Além disso, cercavam-lhes as criaturas da mata e as dificuldades climáticas de um local que, apesar de não chegar ao nível de frio presenciado na antiga terra, costumava ter os campos cobertos de geada no inverno. Toda essa árdua saga se deu lá pela década de 1890, quando os imigrantes eslavos começaram a povoar a vastidão quase vazia do estado do Paraná.
A Colônia Cruz Machado foi fundada pelos imigrantes que lá chegavam, por volta de 1910, sendo eles de maioria polonesa. Nessa localidade, que hoje é município com cerca de 20 mil habitantes, o distrito de Santana (onde fica o museu da foto) é o mais marcado pela imigração polonesa. Porém, naqueles anos de formação da região, mais especificamente em 1911, deu-se uma enorme tragédia.
Museu Etnográfico da Imigração Polonesa em Santana, distrito de Cruz Machado
Houve uma epidemia de tifo que sepultou centenas de poloneses. Como as condições higiênicas eram pobres, a propagação da epidemia foi intensa. É dito que essa catástrofe enterrou mais de 900 pessoas, número muito elevado numa comunidade que ainda estava no seu início naquela época, sendo parte de um município que mesmo hoje conta com menos de 30 mil habitantes.
É bem no meio dessas páginas trágicas da nossa história local que surge nosso herói, o farmacêutico Antiocho Pereira. Contam os descendentes daqueles valentes polacos que o farmacêutico chegara à região por volta de 1911, vindo de Curitiba. Os registros oficiais não falam da verdadeira motivação dele em mudar para aquele lugar perdido no meio de vastos pinheirais, mas se sabe que ele só foi nomeado pelo governo da República como farmacêutico do núcleo colonial Cruz Machado em 1915. É dito que o que motivou sua viagem foi a condição deplorável em que se encontravam os colonos.
Nesse momento da história que começa a lenda de Antiocho. Conta-se que seu trabalho como farmacêutico era totalmente filantrópico, que não cobrava dos mais humildes pelos remédios e que fazia de todo o possível para amenizar os danos daquela situação mortal. Ele foi responsável pela salvação de muitos imigrantes que passaram a respeitá-lo cada vez mais. Segundo os descendentes daqueles que foram salvos por Antiocho Pereira, ele vendia o que era de sua propriedade para conseguir adquirir mais medicamentos para a sofrida população. Dizem eles que o farmacêutico chegou a vender a própria casa e farmácia para que pudesse ajudar a melhorar o quadro de saúde local e salvar mais vidas.
O farmacêutico Antiocho Pereira
Ele teria permanecido no local até 1917, sendo o responsável pela continuidade de muitas vidas naquele povoado, assim como da descendência destas. Os descendentes daqueles imigrantes continuam gratos e contando dos sacrifícios pessoais que Antiocho fizera em nome de uma gente que veio de tão longe e que agonizava no meio do Paraná enquanto tentava garantir o seu sustento e a própria vida. Contam-nos também que, tendo o farmacêutico se desfeito da própria propriedade, os poloneses se reuniram e trataram de conseguir, assim que situados em condição melhor, uma nova casa para o seu salvador.
Os pesquisadores ainda se debatem sobre as fontes para saber o que é real e o que é fantasia nesse relato. A versão que corre na boca dos moradores é de que Antiocho teria se dedicado dia e noite à saúde dos habitantes da colônia, sem fazer distinções se as pessoas possuíam ou não condições de comprar os remédios. Ele também teria se desfeito de suas propriedades para poder ajudar mais eficientemente ao povoado. Após um tempo, os poloneses teriam construído uma casa para o herói em retribuição de todos seus sacrifícios.
Alguns contestam essa versão, pois, de acordo com alguns membros da família, ele não teria vendido a casa e os colonos teriam reformado sua casa como tributo a todo seu serviço ao invés de presentear-lhe com uma nova. Sendo uma ou outra versão a mais de acordo com os fatos, não resta qualquer dúvida de que o trabalho humanitário de Antiocho Pereira será lembrado com respeito e carinho por todos os habitantes dessa região.
Típica casa polonesa
Esse homem de grande virtude saiu de Curitiba para morar em um local em situação de risco perdido entre as florestas do Centro Sul paranaense, onde a população sofria os tormentos da febre tifoide e passava por toda sorte de dificuldade. Seu feito e seu desprendimento em prol do próximo garantiram por parte da Polônia, em 1937, o título de Comendador da Cruz da Ordem do Mérito da República Polonesa, que é a maior honraria que um cidadão pode receber do país. Mais tarde ele seria prefeito da cidade que moro, Porto União (Santa Catarina).
A história desse herói local foi retratada numa produção para a RPC TV sob direção de Guto Pasko. O nome do curta ficou como "O Herói de Cruz Machado" e foi ao ar no programa Revista RPC (16/05/2010), no quadro Casos e Causos, que contava fatos e lendas do Paraná. Para quem ficou curioso com a história, vou deixar a produção aqui:
Referências