Um anime de magia, amor e relações humanas (bom, nem tão humanas assim).
Direção: Norihiro Naganuma | Gênero: Fantasia, Mistério, Aventura
Ano: 2017 | Nota no IMDB: 8,1/10 |Episódios:24
ESSE TEXTO CONTÉM ALGUMAS INFORMAÇÕES QUE PODEM SER INTERPRETADAS COMO SPOILERS (apesar de eu ter evitado colocar as partes vitais da trama)
Maho Tsukai no Yome, que conta apenas com uma temporada até então, convida-nos a um mundo animado pela magia exercida por magos, bruxas e feiticeiras ao lado de seres elementais e criaturas quase eternas. É o nosso próprio mundo, mas, no anime, existe uma dimensão limítrofe entre o mundo material e o mundo espiritual, onde atuam seres de sensibilidade elevada, transitando entre planos e reinos diferentes.
Baseado no mangá escrito por Kore Yamazaki, em outubro 2017 foi lançado, sob a direção de Norihiro Naganuma, a série de televisão de anime no Japão. Até o presente momento, conta com uma temporada, mas há previsão de lançamento de uma segunda, acompanhando a estória do mangá. Lançado pelo Wit Studio, o anime conta com uma animação de qualidade, retratando bem os elementos fantasiosos que compõem aquele mundo mágico. As cores são vibrantes e as paisagens bucólicas europeias condizem com o que se busca apresentar, que é um mundo europeu muitas vezes rural do modo que é frequentemente idealizado no imaginário cultural em jogos, filmes e livros.
Acompanhamos a história de Chise Hatori, uma japonesa de 16 anos com uma sofrida história de vida. Apesar de uma história muito trágica para a pouca idade que possui, há algo de especial nessa garota japonesa de cabelos ruivos e olhos claros, ela é uma Sleigh Beggy, que seria um tipo muito raro de pessoa nascida com a habilidade de gerar e absorver grandes quantidades de energia mágica, sendo o custo disso uma vida de menor duração. Sleigh Beggy, na língua manesa (idioma gaélico da Ilha de Man), significa "gente pequena", que seria o equivalente a "fadas" em inglês.
Em um leilão de uma espécie de submundo de artes mágicas que ocorre às margens da sociedade, ela, agora órfã, é vendida a um misterioso comprador. Este vem a se revelar como Elias Ainsworth, um mago que não é nem humano nem criatura mágica; ele é alguma espécie de meio-termo que desconhece a própria natureza. Com séculos de idade, Elias compra Chise para que seja, além de aprendiz, sua noiva. Elias, em sua aparência mais comum, apresenta um crânio de lobo com chifres de bode, podendo mudar sua aparência em determinadas situações. Ele é um mestre da magia e iniciará Chise nesse mundo, explicando para ela o que eram aquelas criaturas e coisas estranhas que ela via desde criança e que a faziam se sentir diferente de todos.
O anime toma como plano de fundo um mundo onde a mágica é viva e as criaturas encantadas são reais, apesar de pessoas comuns como nós não poderem as ver. Chise, apesar de japonesa, é levada a viver em uma região rural da Inglaterra, lugar habitado por fadas e pelas mais diversas criaturas. O anime viaja pelo imaginário místico europeu, indo aos países gelados do norte e se referindo, ao que parece, até aos povos indígenas sami.
A principal mitologia que influencia o anime é a celta, de onde vêm muitas criaturas e entidades retratadas, como a Rainha Morrigan, por exemplo. É como se a alma do mundo possuísse um nível mais profundo entre a matéria e o espírito, nível onde diversas inteligências atuassem. Os humanos seriam inteligências próximas ao que é material, mas as fadas e outros seres teriam menos de matéria e mais da qualidade etérea do espírito. A quem tem a certa predisposição, esse universo de outras criaturas se apresenta junto com todos os seus espíritos, deuses, fantasmas e demônios.
É possível notar que os criadores da série fizeram uma profunda pesquisa na espiritualidade antiga do continente europeu. Em quase todo episódio há menção a algum tipo de atividade tradicional antiga de passado pagão. Em um determinado episódio, é natal e eles estão para celebrar o Yule (solstício de inverno), buscando um tronco para queimar, hábito que Elias explica para Chise. Esse é um costume muito antigo das religiões europeias e que ainda é mantido em alguns países. No entanto, o cristianismo também é relatado como força atuante no mundo mágico, sendo um padre local amigo de Elias e de Chise.
Outra coisa interessante é que no começo dos episódios, há um pequeno ditado tradicional, aqueles da sabedoria popular. Para nós pode parecer coisa simples e muito comum, mas certamente para os japoneses esses ditados soam como pequenas peças de sabedoria, assim como podem soar a nós os seus dizeres.
Porém, o universo mítico e encantado europeu serve de fundo para que se desenrolem questões pessoais dos personagens. A relação inusitada de amor entre Chise e Elias é um dos focos do anime. Embora haja frequentemente momentos de ação, eles não ditam toda a tônica da série. A impressão que fica é de que são curtos e não tão intensos como costumam ser em outros animes de ação. É sempre como se os momentos de ação fossem secundários diante do aspecto da relação entre os personagens. Há uma crítica que vi em alguns lugares e que julgo válida: de certa forma, o anime é lento. Assim, torna-se de especial importância que aquele mundo em si cative o espectador. A aparente lentidão e do foco diminuído sobre a ação é compensada pelo envolvimento emocional com os personagens, apesar de ter visto algumas pessoas acusando-os de falta de carisma. De um lado, temos Chise, com problemas do passado lhe perseguindo na forma de inseguranças e lembranças e, do outro, Elias, que não é totalmente humano e não consegue compreender apropriadamente conceitos humanos de sentimento. Há um aprendizado mútuo que se desenvolve a partir da relação dos dois, envolvendo os outros personagens que convivem com eles e dinamizando uma estória de amor.
Recomendaria esse anime para aqueles que não são tão presos à ação ou a um ritmo mais intenso, mas que gostam de observar outras coisas. Não necessariamente a relação amorosa, mas a formação daquele universo, as referências míticas e o desenvolvimento da trama além das questões pessoais, mesmo estas estando sempre presentes.
Referências
FONTE 1
FONTE 2
FONTE 3
FONTE 4
Imagens 1 e 2
Imagem 3
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