Langt langt borte saa han noget lyse og glitre,
por Theodor Kittelsen (1900)
O sociólogo francês David Le Breton (2017) reforça a necessidade do homem moderno reestabelecer a prática do silêncio, enxergando-a como forma de resistência à desumanização corrente. A experiência marcante que lançou seu elogio ao silêncio se deu no Caminho de Santiago, na Galiza, quando se sentiu transformado após dias caminhando mergulhado na quietude. Ele também trata do caminhar a partir da tradição francesa de Balzac e de outros, um caminhar sem rumo, vendo nesse hábito um aumento da consciência de si, do próprio corpo e da respiração. Junto à prática do caminhar, pretende-se o desfrutar da percepção dos elementos da cidade e dos seus atrativos. Relacionando esses conceitos à modernidade, ele posiciona o caminhar, assim como o silêncio, como forma de resistência política.
Quando se caminha na cidade, salienta o autor, o homem depara-se, hoje, com o utilitarismo que define aonde deve ir e os caminhos e os meios para tal – o oposto do caminhar meditativo sem destino antes mencionado. Le Breton denuncia que as grandes cidades se tornaram superfícies comerciais. A contemplação assumiria, portanto, o posto diametralmente oposto ao utilitarismo imposto à arquitetura urbana. A isso acrescento: a concepção utilitarista do espaço visa à produção e o lucro, mas a contemplativa oferece o presenciar dos fenômenos e a absorção no mundo e na sua alma.
No entanto, a colocação de Le Breton não tem a ver com um rompimento geral da prosperidade e um retorno às eras anteriores. O que ele defende é colocado em termos de equilíbrio entre o utilitarismo que proporciona a prosperidade dos habitantes e a possibilidade contemplativa que trata da humanização dos próprios espaços e dos moradores das cidades. Então, se ele clama à experiência do silêncio e do caminhar, é necessário que, antes de tudo, àqueles que mais carecem das duas coisas – isto é, habitantes dos grandes centros –, seja possibilitada a própria possibilidade de tomar parte nessas atividades. É difícil buscar o silêncio quando mileum utensílios eletrônicos ficam zumbindo ou apitando com certa frequência ou quando na rua o barulho nunca cessa. Como pensar nesse caminhar se nossas ruas o impossibilitam com situações perigosas e tão pouco amigáveis ao silêncio e à concentração?
Não se trata de pedir que o governo tome medidas para mudar à força o espaço. O grande ponto da reflexão de Le Breton parece ser iniciar por nós mesmos. Tomar um tempo para si, como faziam os antigos, meditar sobre as coisas, encontrar-se por algum tempo a cada dia. Esporadicamente, buscar alguma forma de retiro da vida caótica, tal como o sociólogo fizera no Camiño de Santiago. É nesse sentido que caminhar e exercer o silêncio são formas de resistência; eles subvertem uma unilateralidade perigosa que desumaniza por nos empurrar somente em uma direção. Buscar uma via mais introspectiva no cotidiano é uma maneira de se aproximar do equilíbrio.
O grande exercício consiste em transitar da percepção que toma o espaço do mundo apenas como lugar de cálculo para a que tem o mundo como presença, como coisa a contemplar, a se demorar junto dela. Caminhar sem que se preocupe tanto com o caminho do ponto A ao ponto B, observar a arquitetura, as pessoas, a vegetação, demorar-se junto de cada significado, de cada símbolo. É uma experiência estética na qual se constrói a visão poética de mundo: menos calculista e sempre prejudicada quando nos atropelamos em afazeres e em utilitarismo exagerado.
A partir da fala de David Le Breton, a reflexão pode partir para dimensões mais profundas e variadas, mas a essência permanece. Ficar em silêncio e caminhar – ou seria vagar? – podem ser atividades de resistência poética e existencial, uma maneira de equilibrarmos e centralizarmos nosso ser. Não é conversa nova era ou good vibes, mas a breve constatação de que a nós têm faltado o silêncio e a contemplação.
REFERÊNCIAS