Os dentes são fod... lixados. Se experimentares apertar um dente com os dedos, não sentes nada, porque as sensações estão só no nervo. E, no entanto, os dentes apodrecem e, quando infetam, doem mais que um pontapé no canto da mesa quando estás descalço.
Os dentes deviam ser permanentes. Deviam ser como as unhas. Nunca apodreciam e, se cortássemos ou tirássemos um, crescia sempre outro. Tínhamos era de estar a apará-los de vez em quando.
É que uma dor de dentes é mesmo uma coisa fod... lixada. Não conseguimos dormir, não conseguimos nos concentrar, não conseguimos fazer nada, só queremos esquecer a dor. E qualquer coisa que se veja ou que se oiça que tenha a ver com dentes, faz logo lembrar a dor. Durante esse tempo, eu não posso ver ninguém a trincar comida, a mostrar os dentes ou a comer gelado. Aquilo tudo lembra a dor. Até tenho dores quando oiço alguém a falar num aparelho bluetooth.
Eu tive um dente com uma cárie tão grande que até tinha um buraco enorme. Fui a uma consulta no dentista para ver se dava para repará-lo, mas não... a solução era arrancar. Por isso decidi que, enquanto não doía, não arrancava. Mas com o buraco que tinha, por vezes, havia comida que entrava lá para dentro. Tinha de tirar com a ajuda de um palito.
Conhecem aqueles rebuçados bem pequeninos de mentol que se chamam de Smints? O que me acontecia também é que, quando punha na boca um Smint, às vezes também entrava no buraco do dente. E, como o Smint é pequeno, ficava inteirinho dentro do dente. Mas eu nem o tirava, porque até era uma vantagem. Ficava com a boca fresca durante muito tempo. Aquilo estava guardado no dente e refrescava-me a boca. Parece quando colocamos um ambientador Harpic pendurado na sanita para ir refrescando. Por isso, pude dizer que tinha um Harpic no dente.
"Tens de colocar aparelho nos dentes!" Não, não é uma ordem que se deu a um miúdo de 12 anos, mas sim algo que eu quis fazer... depois dos 30. Na altura virou moda pessoas adultas usarem aparelho nos dentes. Antes era na juventude. A moda deles agora é as calças descaídas, mas isso é outra história.
Ainda me lembro quando fui colocar o aparelho, a dentista disse-me que não podia beber Coca-Cola, porque pode corroer um pouco o aparelho. Não faz mal. Por acaso, não é bebida que beba muito. Agora, se ela dissesse para não beber álcool, eu dizia logo: "Ah, então tire-me esta porcaria da boca. Assim não quero!"
Com aquele metal todo na boca, cheguei a apanhar frequências da Rádio Cidade, da Mega FM e da Rádio Seixal. Num sítio em que antes tinha um dente podre, aí só dava funk brasileiro. Mas, pelo menos não me podia queixar de ter falta de ferro no corpo.
Mas era complicado falar. Aquilo atrapalhava. Fala-se de maneira diferente. E saliva-se muito. No início, deitava mais gafanhotos que uma praga no Egipto.
E quando dizia palavras com a letra F, de vez em quando saía um assobio. Quando dizia uma palavra com F, havia um cão que ladrava.