Nesta série de leituras, trago-vos as Funções Nervosas Superiores quanto à sua origem, como se desenvolvem e que alterações é que poderão apresentar.
Desta vez temos a Perceção.
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A perceção é uma atividade psicológica que envolve informações das várias modalidades sensoriais e possibilita a construção de conceitos sobre situações e eventos que se desenvolvem no tempo e no espaço.
Todas essas informações adquiridas através das perceções mais simples ou mais complexas são armazenadas na memória e podem ser utilizadas pelo indivíduo em situações futuras. É importante relembrar que qualquer forma de atividade psicológica é um sistema que envolve a operação simultânea das três unidades funcionais do cérebro.
Abordando a perceção visual como exemplo: esta envolve um nível adequado de atividade do organismo – primeiro bloco funcional; a análise e a síntese da informação recebida pelo sistema visual – segundo bloco funcional; e a intenção do indivíduo em olhar para um determinado objeto, com uma finalidade e a correspondente mobilização do corpo para que a perceção plena aconteça – terceiro bloco funcional.
No bebé humano, os órgãos da perceção ainda não funcionam. O bebé não tem perceções isoladas, não reconhece objetos e não destaca nada no caos generalizado que é o seu mundo.
As sensações de fome talvez sejam os primeiros fenómenos psicológicos de natureza elementar que se observam no bebé. A ligação com o meio-ambiente inicia-se na boca e é aí que aparecem as sensações iniciais – as funções nervosas elementares.
A fase inicial da perceção ocorre por volta do mês e meio de idade quando se observam movimentos coordenados dos olhos; estes movimentos são condição essencial para o bebé começar a ver.
Entre os dois meses e meio e os três meses observa-se o reconhecimento correto de rostos e aos quatro ou cinco meses o mundo visível torna-se acessível ao bebé.
Este desenvolvimento produz uma revolução total na vida do bebé que passa de primitivo, com sensações biológicas apenas, para um ser que começa a interagir com o ambiente, reagindo ativamente aos estímulos visuais que dele provêm.
O princípio biológico de existência começa a ser substituído pelo princípio psicológico e social. A criança começa a ver o mundo não só com os seus olhos como um aparelho de perceção e de orientação, mas juntando toda a sua experiência anterior.
Surge um tipo específico de perceção, o mundo indiferenciado de perceções fisiológicas é substituído pelo mundo das imagens. As impressões externas misturam-se com as imagens preservadas a partir da experiência anterior.
O que a criança antes percebia como um conjunto de fragmentos acidentais e isolados começa agora a ser percebido como uma série de quadros completos.
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A perceção é de natureza complexa e inicia-se pela análise da estrutura do objeto que, ao ser recebido pelo cérebro, é codificado e sintetizado numa série de componentes ou pistas.
O processo de seleção e síntese é de natureza ativa e ocorre quando o indivíduo se confronta com a influência direta da tarefa.
A perceção humana é um processo complexo de codificação do material percebido que se realiza com a estreita participação da fala; a atividade percetiva nunca acontece sem a linguagem.
No adulto, a perceção enquanto função nervosa superior depende da influência social e cultural, representa o modo de interpretação das suas vivências e continua a estar diretamente relacionada à fala.
Referência: Marangoni, S. & Ramiro, V. C. (2012). Fundamentos da Neuropsicologia Clínica Sócio-Histórica. Ed: IPAF Lev Vygotsky Brasil (São Paulo).
Fiquem atentos aos próximos artigos!
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Fundamentos da Neuropsicologia – Leitura Bibliográfica Parte I | Parte II | As Crises Psicológicas - Parte I – Introdução | Parte II – A Crise Pós-Natal | Parte III – A Crise do Primeiro Ano | Parte IV – A Crise dos Três Anos | Parte V – A Crise dos Sete Anos | Parte VI – A Crise dos Treze Anos | Parte VII - A Crise dos Dezassete Anos | Conclusão
A Constituição das Funções Nervosas Superiores
Atenção | Comprometimentos da Atenção
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