As mãos do meu pai também ilustravam a sua personalidade um pouco abrupta mas sólida. De dedos curtos e manchados da nicotina solta pelo cancro que fumou desalmadamente com a placidez resignada de quem sabe-que-vai-morrer-e-não-quer-saber, não se eximiram de produzir toda a espécie de artefactos e dedilhar a sua guitarra com alma de marialva lisboeta.
O meu irmão, por seu turno, tinha mãos magras, curiosas e inquietas, com os dedos ossudos e uma pele espessa e escurecida própria dos trabalhos da oficina de automóveis que tinha na juventude. Eram mãos habilidosas, obreiras, afáveis e sempre disponíveis, que não tiveram, no entanto, força suficiente para segurá-lo a uma raiz existencial que lhe desse sentido à vida.
As mãos da minha mãe são o espelho da aparente delicadeza sob a qual esconde a lendária tenacidade duma Leoa do Zodíaco. Foram sempre bruscas e não sabem pousar-se. Fizeram-se de nervosismo e impaciência, talhadas para o acessório que se veste de essencial e apresentam-se ao cumprimento, delicadas, frias, misofóbicas e algo distantes. Contudo, nos últimos anos, têm-se esforçado com timidez atabalhoada, para o tacto do afago e dos afectos, com fraco sucesso mas genuíno propósito.
Gosto de observar mãos que conversam junto com a voz e desenham adjetivos que a palavra não alcança, mãos que afagam quentes, que acariciam como o vento ténue, que enchem os espaços deixados vagos pela solidão, pela indecisão e pela ausência de tudo o que não conseguimos alcançar, mãos provedoras, múltiplas redes de todas as fainas que aplacam as nossas fomes.
A psicóloga que em tempos consultei tinha mãos tranquilas, pálidas e transparentes, a pender dos pulsos magros pousados nos braços da poltrona, num despojamento de preconceito que me deixava confortável para ser quem tivesse que ser. Quando se agitavam sabia que emolduravam alguma referência à qual devia prestar atenção, pois era raro manifestarem-se. Eram receptivas a acolher, mas quando em riste impunham respeito e faziam-se ouvir. Inspiravam-me confiança.
A maioria das mãos parecem-me anódinas e sem história, mas nem por isso são irrelevantes, pois todas pertencem a alguém a quem servir, construindo as suas histórias de vida.
As mãos criam, matam, seguram, acariciam, libertam, puxam, limpam, afastam, consolam, esmagam, salvam, escondem, sujam… e sabem falar a linguagem da mudez.
As minhas eram minúsculas e desajeitadas ao teclado do piano da sala de música da Academia de Belas-Artes Luisa Todi, em passagem fugaz pelos devaneios de fina educação que a minha mãe levou com ela antes da revolução de abril. Mas vieram a firmar dotes no traço desenhado “desenvolto e firme” (epítetos da autoria dos professores de educação visual) e na escrita, ajuizada como prolífica, ficcional e descritiva, pelos meus docentes da língua de Camões.
E eu fui crescendo pela forma como manusearam, combinaram, construíram, erraram, desmancharam, refizeram e como sentiam as formas, as texturas, a energia telúrica e todas as estimulações que só o tacto sabe ler.
As mãos representam a propriedade, a singularidade e o poder pessoal de cada um e constroem-nos a mente dum saber-se infinitamente possível. Por isso, se eu fosse psicóloga, desenvolvia uma terapia para as pessoas com baixa estima, baseada no apreço pelas mãos.
Desafiava-as a reviver o seu percurso pessoal, visualizando os gestos e maneirismos ao longo dos tempos. A brincar. Escrever. Fabricar coisas. Cozinhar. Conduzir. Apertar outras mãos. Votar. Dar ou receber. Afagar um animal. Apertar coisas ou mãos que importam. Assinar documentos. Consertar. Arrumar. Em suma, flashes das suas nossas mãos a realizarem tudo o que torna uma vida repleta de acção e significado.
As mãos são artesãs da verdade de cada um, o que é coisa sagrada. Por isso acredito que a consciência da magnitude do que elas fazem, na sua simplicidade existencial, é quanto basta para aniquilar os sentimentos de menoridade ou irrelevância que o ego em nós tanto gosta de insinuar.
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Pratique o optimismo. Cultive a alegria.
Apaixone-se pela vida