O mundo das discussões contempla pensamentos formidáveis. Há, num só ponto, argumentos apologéticos geniais, antagonizando-se a reflexões em dissonância impressionantes. Só que nem só de genialidade fluem os debates, como também de uma variedade infindável de idéias asininas que, por não encontrarem refutação séria, permanecem vivas, tomando status de brilhantismo. Por serem vistas como intrigantes mesmo possuindo falhas grosseiras, acabam gerando consequências aterradoras, incluindo a morte de milhões.
"Uma mentira dita mil vezes se torna verdade"
Esta frase é, do ponto de literal, falsa, a menos que a frase dita seja: "eu disse esta frase mil vezes". Contudo, uma coisa é certa: a de que uma mentira muito repetida, sem a devida contraposição, aparenta ser verdade. Muitas vezes uma ideia acaba, por se mostrar ilógica demais, sendo desprezada e ficando sem resposta. O problema é que, constantemente, essas idéias continuam circulando, tomam o imaginário popular e tornam-se mantras aparentemente irrefutáveis. Ou seja, acabam, por sua risível estupidez, sendo dadas como axiomas por aqueles que se iludem com a falta de resposta, que aparenta uma irrefutabilidade inexistente numa ideia que refuta a si mesma.
Quanto mais tempo um enunciado errado é deixado sem resposta, maior a sua aparente validade, o que gera milhões de seguidores capazes de morrer por um ideal frágil que, por possuir uma falácia colossal, fruto ou da inaptidão ou do mal caratismo do ideólogo que a proferiu, foi deixado de lado. Em congruência, a paixão de muita gente por essas idéias faz com que tentem colocá-las em prática. Ao conseguirem, é constatado o óbvio: as proposições não eram tão boas assim. Um exemplo de ideia aparentemente inconcebível e que se tornou dogmática é:
"se o proletariado tudo produz, ao proletariado tudo pertence".
É muito engraçado, embora execrável, que muita gente (geralmente, aqueles que não pertencem à classe operária) repita tal absurdo. O período dá a entender que a única forma de trabalhar é transformando algo natural em um bem que possa ser contabilizado. Só que ao pensar desta forma você esquece de profissões fundamentais, como a dos professores, a dos médicos, dos advogados, dos escritores, etc. Basicamente, é idealizada uma sociedade primitiva, em que ou você trabalha com o único objetivo de subsistência, não possuindo meios de produzir nada de intelectualmente relevante, ou morre, tal qual no nomadismo pré-histórico. Muita gente defende essa ideia, autodenominando-se "progressistas".
Se queremos mesmo usar discussões não como algo meramente recreativo, mas como verdadeiramente útil (explanei a utilidade dos debates em meu primeiro artigo: https://steemit.com/dialetica/@joaocarlosrf/o-desinteresse-brasileiro-por-discussoes), é necessário que refutemos não somente os pensamentos que apresentam uma sólida fundamentação, mas também aqueles que hoje parecem cômicos, para que, no futuro, não se tornem trágicos.