Aqui começamos efetivamente nossa história da Cidade das Damas, com Christine.
(...)
Sentada em sua sala de estudos está uma estudiosa mulher, com seu longo vestido azul e na cabeça um fino tecido branco perfeitamente ornado
Christine de Pizan lê, em voz alta e séria, a seguinte passagem de um pequeno livro que tem nas mãos:
— Ah! pobre de mim, que tanto amei que por amor me tornei bígamo. Ah! tenho agora o coração triste demais, pois ela agora é tão sarnenta, curvada, corcunda e barriguda, desfigurada e desfeita que parece um disforme ser. Raquel se tornou Lia, toda grisalha, toda encanecida, rude, senil e surda, em tudo o que faz é vil e pesada; tem o peito duro e suas mamas, que costumavam ser tão belas, estão franzidas, negras, enxovalhadas como bolsas de pastor molhadas.
Após uma longa e sarcástica gargalhada, Christine respira fundo e diz:
— Quando leio livros como este, sempre me ponho a perguntar, quais poderiam ser as causas e motivos que levaram tantos homens, clérigos e outros, a maldizer as mulheres e a condenar suas condutas em palavras, tratados e escritos? Sempre penso sobre minha conduta, eu que nasci mulher, penso também em outras tantas mulheres com quem convivi, tanto as princesas e grandes damas, quanto às de média e pequena condições, que quiseram confiar-me suas opiniões secretas e íntimas. Procurei examinar, na minha alma e consciência, se o testemunho reunido de tantos homens ilustres poderia ser verdadeiro. Mas, pelo meu conhecimento sobre a questão, não consigo compreender, nem admitir a legitimidade de tal julgamento sobre a natureza e a conduta de nós, mulheres. Por isso pergunto a vós senhor Deus! Como é possível? Como acreditar, sem cair no erro, que tua infinita sabedoria e perfeita bondade tinham podido criar alguma coisa que não fosse completamente boa? Não é verdade que nos criaste com um deliberado propósito? E desde então, não nos deste todas as inclinações que gostarias que tivéssemos? Pois, como seria possível teres te enganado? E, no entanto, eis tantas acusações graves, tantos decretos, julgamentos e condenações contra nós! Eu não consigo entender essa aversão. E, se é verdade, meu Deus, que tantas abominações abundam entre nós mulheres, como muitos o afirmam - e, como tu mesmo dizes que o testemunho de vários garante a credibilidade, por que não deveria pensar que tudo isso seja verdade?. Que pena! Meu Deus! Por que não me fizeste nascer homem para que minhas inclinações estivessem a teu serviço, para que em nada me enganasse, para que eu tivesse esta grande perfeição que os homens dizem ter? Mas, como tu não quiseste, como não estendeste tua bondade até mim, perdoe minha negligência ao te servir, Senhor Deus, e não te descontente, pois o servidor que menos recebe de seu senhor, menos é obrigado a servi-lo.
Christine fica triste e abatida, com lágrimas nos olhos e perde seu olhar no horizonte. Nesse momento surgem as três Damas, Christine se assusta com a aparição, até que profere as seguintes palavras...
Continua...
Essa foi a segunda parte do texto de uma peça adaptada por mim, para o Festival Medieval de 2017, em Florianópolis, SC. A imagem de abertura é de minha autoria, das três damas Retidão (Tayna D.), Justiça (Janaína Z.), Razão (Rafaella S.) e ajoelhada está Christine de Pizan (Aline D. S.).
Aqui segue a foto de toda a equipe que ajudou e participou dessa experiência incrível que foi o último Festival Medieval de SC.
#TrovadoresNordicos
Bora bombar a mais nova hashtag desse Steemit em #pt?
Pode marcar na sua agenda!
No fim de cada parte terá o sumário de links para os post anteriores. Serão uma contribuição a #TrovadoresNordicos criada pelo no post Apresentando uma nova tag Então aguarda que vem mais!
Agradeço sua dedicação na leitura.
Te desejo uma excelente semana e volte quando quiser!
