Da morte de deus à sua recuperação plástica e comercial, com os milhares de movimentos, congregações e igrejas evangelistas e grupos e grupelhos fanáticos do islamismo, do hinduísmo e de toda a «new age», sustentada na crença irracional, passa pela sociedade um comboio de destruição dos valores humanistas, drapejando à cabeça a bandeira das arbitrariedades golpistas que, a alta velocidade, se dirige para a mais obscura das gares: a ditadura sobre os livres-pensadores em nome da maior falácia da história, a crença divina, numa potência exterior ao homem, e, paradoxalmente, na sua ajuda num processo de destruição dos valores fundamentais da humanidade neste conturbado século XXI. Mais do que um «eterno retorno», é o retrocesso aplicado pelas elites revanchistas.
São os corruptos, os assassinos, os déspotas, os criminosos, aqueles que mais apelam às forças divinas para que a derrota das democracias ou a impossibilidade da sua implementação se torne na mais negra realidade dos nossos tempos.
Os corruptos que tomaram conta dos Estados, os assassinos treinados na estrutura estatal que vão matando a esperança de gerações e gerações em nome da gula dos depravados, os déspotas que encontram nesta paisagem de desolação o terreno propício para a imposição de ideais a favor dos seus interesses e contra os cidadãos, os criminosos que actuam sem cabeça e que funcionam como polícia punitiva contra uma sociedade que se revolta.
Tudo sustentado no negócio de curto-prazo, no imediatismo, na volatilidade das modas e dos desejos mais primários baseados na inveja. A instabilidade na confiança em si-mesmo está a conduzir a humanidade a um buraco negro. As instabilidades dos sistemas financeiros e das economias a partir de jogos subjectivos de valorizações e desvalorizações de bens essenciais ao desenvolvimento humano como se a humanidade fosse um mero peão de brega.
Os optimistas que lutam pela transparência das ideias e dos actos são ferozmente combatidos pelos pessimistas que subvertem os valores do progresso humanista em nome de redenções divinas. Os optimistas acreditam nas faculdades criadoras do homem.
Os pessimistas crêem na salvação divina, fazendo crer que só essa entidade obscura tem nas suas mãos o futuro da humanidade. Ateando fogueiras de medo, inspirados pela ideologia das inquisições de várias origens, os actuais «senhores» do mundo aplicam a mesma retórica para esmagar qualquer veleidade da humanidade se libertar da falácia teísta e começar definitivamente a acreditar nas suas potencialidades criadoras.
Os optimistas, sejam irritantes ou não, avançam na senda da glorificação do homem através da verdadeira ciência e cultura humanista. Os pessimistas, com a carga oportunista e profundamente desonesta que lhe está associada, esperam pela intervenção divina a favor dos seus exclusivos interesses pessoais imediatos ainda que ponham em causa a sobrevivência do próprio planeta.
Os optimistas defendem a escola pública como centro de educação, de aprendizagem e que satisfaça o desejo dos alunos para que o futuro os atenda; os pessimistas querem destruí-la para que sejam as «escolas» privadas a seleccionar quem tem direito ao ensino e impor a formação que mais interesse à eternização das elites no poder. É a destruição do ethos regional em nome de uma «normalização» das massas para que as elites ainda se distingam mais através da hipocrisia deícola.
Os optimistas pensam, logo não podem existir!
Foto José Lorvão