A ética esfumou-se do espaço social e económico e o seu contrário, corruptor, é imposto do exterior com um falso argumentário do novo-riquismo que veicula a sua desinformação através dos media.
É natural que radicalismos nacionalistas estruturados nos conceitos mais retrógrados e conservadores de família e nas, sempre perversas, Igrejas e confissões religiosas tentem recuperar o território que perderam pela aplicação das suas lógicas do efémero. Este movimento paradoxal de destruição do bem-estar colectivo para a recuperação de um espaço privado contra a propriedade pública é o reflexo de uma estratégia implementada de fora para dentro para uma desnacionalização da memória e da cultura e de todo um povo para que os braços do polvo, cuja cabeça é formada pelos caciques da União Europeia, suguem tudo à sua passagem em nome de um sinistro pacto de estabilidade.
Os media controlados pelo poder político, que por sua vez está subjugado ao perverso poder financeiro, têm como missão normalizar o medo e a cobardia junto dos cidadãos para que o processo de desestruturação da prática democrática da cidadania seja efectiva e irreversível.
Os media da hipermodernidade, através da criação das suas imagens excessivas e violentas, impõem comportamentos, isolando quem resiste e promovendo os seus títeres sem voz própria desapossados de alma e dignidade.
Se, por um lado, o aparente objectivo é a estandardização dos comportamentos, por outro, é a morte da crítica o que mais interessa aos «capones» que hoje controlam as políticas ocidentais onde sobressai o caciquismo das instituições europeias. Está institucionalizado um regime criminoso cuja vítima preferencial é a cidadania. Ao inscrever-se no registo do espectacular, da moda feérica, os media valorizam a propaganda do luxo, do divertimento vazio, contra a implementação do conhecimento e do saber cujos valores representam o seu principal inimigo.
A megadiversidade da informação quer induzir ao indivíduo que ele tem acesso a uma liberdade de escolha nunca vista, a uma autonomia libertadora que se reflecte na ilusão de se ter uma opinião própria. Nada mais falacioso. Essa megadiversidade é constituída por elementos de formatação estanque do indivíduo, levando-o a escolhas sem opção, criando à superfície da consciência o paradoxo de quem pensa que está a escolher o que na realidade lhe está a ser imposto.
O debate deixa de ser democrático porque a crítica é silenciada através da sua morte prematura. Os media só dão acesso às vozes do dono.
E da uniformização dos comportamentos, que representa a primeira fase do ataque à cidadania, passa-se à uniformização das convicções plasmadas em falsas opiniões que dão a entender que há liberdade de pensamento quando na verdade o que há é o seu estrangulamento. O que é uma fraude.
A hipermodernidade está a conduzir-nos a um niilismo totalitário. Quando se exacerba o individualismo está a capturar-se o indivíduo solidário, ou seja, a conduzir a humanidade para um beco sem saída.
Os media desinformam e censuram a partir da manipulação das imagens que levam à manipulação dos comentadores ao serviços dos seus patrões e amos.
Do admirável mundo novo ao repugnante mundo da «novidade» excessiva, há toda uma estratégia de aniquilação do poder cítico face à realidade hipermoderna.
Desvaloriza-se a inteligência e promove-se a estupidificação de massas com a normalização e internacionalização de programas abjectos para o consumo de massas que, sendo assim domesticadas, deixam de ter poder de reacção, acabando por morrer com a ideia de que foram autónomas e felizes. Nada mais perigoso para a humanidade.
Reconquistar a autonomia consciente de si é o primeiro passo para que a cidadania se liberte do polvo gigantesco que, com os seus braços repelentes, está a esmagar a civilização humanista.
Luís Filipe Sarmento, Gabinete de Curiosidades, 2017. Edição brasileira, Landmark, São Paulo, novembro 2017.
Edição Portuguesa, Poética, Lisboa, Abril 2017
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Foto: José Lorvão