A sacralização do actual, a liturgia do «minuto de sorte» nos grandes armazéns, o apelo ao consumo do desnecessário, da novidade inconsequente, do «gadget» para a caixa de obsoletos, trouxe ao presente uma ideia de futuro que a partir do passado recente o estigmatizou às portas da miséria. Resultado da comunicação de massas, da adjectivação superlativa do produto supérfluo através de uma lógica de um desejo imponderado de acumulação de coisas inúteis ao bem-estar.
De uma sociedade castradora a uma sociedade do efémero, da moda, de uma falsa ideia de poder estar na linha da frente, o escravo é seduzido pela escravidão. Neste ardil, só tem valor de atenção tudo que não seja repetitivo.
O espaço íntimo da casa torna-se «vitrina» da novidade e do desejo de consumo. Moda e desejo desarticulam o bem-estar íntimo, provocam dissociações com o meio, criam divórcios. Do espaço de interioridade e contemplação, o indivíduo é levado ao consumo do espaço mutante, espectacular e exibicionista. Donde a exigência dos grandes armazéns e dos híperespaços de consumo, a proliferação de uma aparente escolha com o «faça você mesmo», a moda dos padrões efémeros, dos objectos-fetiche impostos pela massificação das imagens excessivas que metralham o indivíduo, destruindo-lhe o gosto, mas fomentando-lhe o desejo do último modelo e o pavor humilhante de não ficar para trás. Consumo vitorioso das marcas até à miséria final do indivíduo-lixo. Esquecido. Ultrajado. Derrotado. Vítima do neofilismo perverso e doentio.
Esse desejo privado, que alimenta uma felicidade precária e efémera numa lógica de corrida sem destino e contra ele, antecipa o futuro como um estupefaciente que leva o indivíduo ao êxtase alucinogénio da novidade supérflua. A urgência do prazer imediato estimula o esquecimento dos valores fundamentais da existência, transferindo o deleite do conhecimento para uma frustração programada e dirigida a distância do não alcance de tudo o que é novo, destruindo, assim, a essência do processo criativo que melhore a humanidade na partilha dos afectos e na solidariedade colectiva.
Ao contrário do que se quer transmitir na mensagem do produtor de novidades excessivas, isto não desenvolve o que há de melhor no ser humano, mas destrói-o num mundo de frustrações intermináveis que afectará irremediavelmente a relação com os outros.
A euforia do consumo subiu ao pódio de onde se «avista» a mais pérfida miragem de bem-estar e lazer.
Ninguém quer ficar para trás nesta louca corrida à moda, fomentando o endividamento e o controlo de si por outro e a consequente precariedade futura onde tudo se perde: trabalho, família, sonho de bem-estar. Do paradoxo de uma felicidade eterna à perda de si que retrai o estímulo de uma vida melhor no seu tempo de eternidade. Deixa de haver presente e futuro, mas apenas memória «áurea» de uma falsidade de um passado que retirou expectativa equilibrada num futuro de boas perspectivas.
Marcas e mercados, bancos e dinheiro multiplicado, corrupção e golpes financeiros não são alheios a todo este processo de desmoronamento do edifício ocidental que deveria ser a vanguarda do bem-estar e mais não é do que a retaguarda criminosa do assassínio em massa. A sociedade hipermoderna do Ocidente é a mais devastadora «serial killer» da história da humanidade e que não pode ser directamente imputada. Só uma verdadeira revolução de mentalidades poderia reequilibrar a vida planetária, mas não sem que houvesse um confronto ideológico que pusesse fim ao desbragamento e incontinência financeiros que levou a «elite» das «elites» ao descontrolo fatal e ao assalto despudorado dos bens colectivos para alimentar a sua satisfação imediata de lazer luxuoso.
A liderança europeia estimulou e estimula a prática deste crime cujo resultado é aquele que estamos a sentir na pele com o saque a que estamos a ser criminosamente sujeitos. A consciência de futuro apela-nos para um movimento de mudança que altere este paradigma europeu tão arreigado na sua história feudal de má memória.
Luís Filipe Sarmento, Gabinete de Curiosidades, 2017
Foto: José Lorvão