Ao lusco-fusco - o dia estava escuro, embrulhado em nuvens.
O dia estava escuro, embrulhado em nuvens e o relâmpago começou a brilhar intensamente e as ondas sonoras de trovões expandiram de forma violenta o silêncio dos montes e a paz dos pássaros. A chuva começou a chorar em Díli.
Cancelei a minha visita programada à casa do meu amigo Marcelo, enviando pelo vento a minha voz de cancelamento. No beirado da minha casa, estendi as mãos, abrindo as palmas e fazendo o remanso. A água esgotou, molhando o meu corpo com a paz do universo. A chuva não parou e continuou a chorar. As suas lágrimas de esperança e de vida escorreram nas minhas veias. Enquanto eu recuei e voltei a quebrar a mente em pedaços das palavras para cozinhar a minha escrita, as ideias não fluíram inesgotavelmente como a chuva que não parou e não se cansou de bater no telhado da minha casa. Descansei uns minutos. Instantes depois, a chuva despediu-se e foi-se embora e eu saí para fora.
Ao lusco-fusco, numa pedra solitária, eu sentei-me. Ouvi ao meu redor um grilo macho que cantava para atrair a fêmea e o fez com que a noite fosse mais serena e segura. Vi ainda no topo de uma árvore, ao lado da minha casa, as andorinhas que voltaram aos seus ninhos e se repousaram serenamente. Enquanto galinhas do meu vizinho reuniram seus pintainhos e começaram abrigá-los.
Com a minha mente tão lúcida contemplei as estrelas e a noite de plenilúnio. As estrelas caíram lentamente e desapareceram nos meus olhares enquanto o plenilúnio aclarou todo o universo da minha vida e a vida de toda a criatura. Minha vida é sempre ligada ao universo.
Os raios luminosos dos vaga-lumes daquela noite se transformaram em estrelas imaginárias como se brilhassem nos campos verdes e na terra noite. Enquanto a lua sempre brilha no silêncio de ouro, no silêncio do céu, quando meu mundo está com sede e quando está seco na alma e quando chora na sua hora.
Por mais serena, fria e longa que seja a noite, o sol sempre volta a brilhar no dia seguinte, raiando esperanças luminosas para um futuro mais rutilante.
O calor do sol que tenho sentido nos meus dias como se fosse o amor de Margarida, minha mãe colorida no amor, colorida na flor. É a flor que sempre fulgura nos meus olhos e que agasalha meu corpo no seu úbere enquanto sua olência exala no caminho da esperança, no caminho da minha viagem.
Francisco de Araújo