Continuação da PARTE I
Do que falamos então quando mencionamos que a cultura do povo timorense é caracterizada pela língua portuguesa?
No ponto de vista antropológico-sociológico, a cultura é o conjunto de atitudes e padrões de comportamento, linguagens, conhecimentos e saberes adquiridos, costumes, informações etc. que distinguem um indivíduo, um grupo social e um povo numa perspetiva evolutiva. Neste sentido, ao longo de muitos anos, a língua portuguesa tem vindo a assumir um papel crucial na civilização moderna do povo timorense e na evolução cultural.
No fundo, a questão da cultura possui um sentido mais amplo e abrangente. Por isso, é necessário decifrar e explorar esse conceito que pode nortear a nossa abordagem quanto à identidade cultural. Destacamos assim a cultura na dimensão política e administrativa, a cultura jurídica, cultura na dimensão de identificação pessoal, culinária, indumentária, música, etc.
Quanto à identidade, falamos das “características e circunstâncias que distinguem uma pessoa ou uma coisa e graças às quais é possível individualizá-la” - (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, Instituto António Houaiss de Lexicografia Portugal, Tomo II, pg. 2029) . Ou melhor dizer, como é que se identifica uma pessoa pelo seu nome, pela sua maneira de ser, de vestir, de falar (sotaque), de comer, etc. É a partir destas características que somos identificados interna e externamente.
Sincronizando esses conceitos teóricos, a minha perspetiva central quanto à afirmação da identidade cultural do povo timorense assenta em dois processos fundamentais que a língua portuguesa pode caracterizar, nomeadamente, o processo de identificação interna (dentro do país) e o processo de identificação externa (fora do país – na região do sudeste asiático, e outras regiões do mundo). Neste sentido, o papel de todos os cidadãos em difundir a língua portuguesa é extremamente importante.
Relativamente ao processo de identificação interna, podemos atentar nos seguintes elementos, nomeadamente, os nomes próprios de origem portuguesa sobretudo os apelidos que diferem, de uma maneira geral, a naturalidade do indivíduo, como por exemplo, Araújo e Corte-Real é de Ainaro; Babo é de Ermera; Gusmão é de Manatuto/Laleia/Vemasse e Baucau; Ximenes também é de Baucau; Sarmento é de Soibada; Oliveira, Soares e Osório são de Laclúbar; Lobato é de Liquiça/Bazartete e Soibada; Guterres é de Viqueque, etc.
Quanto aos nomes próprios, por um lado e sem dúvida, a maioria dos timorenses tem o nome de origem portuguesa mas, por outro, podemos constatar que a Igreja Católica já não é exigente como era. O meu pai é catequista e lembro-me que dantes, quando havia um programa de baptismo, ele e os padres não aceitavam qualquer nome de origem indonésia ou qualquer abreviatura a não ser o de origem portuguesa, sobretudo os nomes dos santos.
Um malae - o termo designado a um(a) qualquer estrangeiro(a) principalmente provindo(a) da Europa, África e América - português ou brasileiro, quando for aos mercados de Díli ou mesmo no interior do país ou passeando pelas ruas de Díli, pode ficar surpreendido com a quantidade de produtos com o nome em português, desde logo frutos (tangerinhas, ananas, abacate, maçã, etc.); legumes (mostarda, alface, repolho, tomate, cenoura, etc.), e outras especiarias.
Já no processo de identificação externa, temos certas características que diferem principalmente a nossa existência na região da Ásia e do Pacífico, bem como em outras regiões do mundo. Essas características são civilizadas e modernizadas pela língua portuguesa. Destacamos: Músicas e danças folclórica e poesias (Hino Nacional Pátria, Pátria, etc.), arquiteturas, ação cívica de intelectuais e figuras públicas, etc.
Por outro lado, nós nunca podemos esquecer o papel dos média (jornalistas) e dos escritores na produção e divulgação da nossa cultura e literatura. Num estudo feito por Vicente Paulino, sobre os média e a afirmação da identidade cultural timorense (2014. pg. 2) diz o seguinte: “É justo que se diga que, de entre os jornais publicados em Timor, a Seara foi, de todos, o que mais contribuiu para a correcta representação da cultura e identidade do povo timorense. De facto, este periódico teve um especial papel na divulgação das “ideias, crenças, tradições, lendas que nos permitem ver a alma destes povos tão simples e tão complexa, tão diferente da nossa, mas, em última análise, a braços com as mesmas eternas aspirações humanas, em presença das mesmas interrogações perturbadoras, em luta com os mesmos imponderáveis inimigos” (Jornal da SEARA, Ano 1-nº.1, 1949:11)”, o que diz Benedick Anderson. E por outro lado, o mesmo estudo diz ainda o seguinte: “Poder-se-á dizer também que a construção da identidade nacional do povo timorense resultou do esforço conjugado do papel “reconstrutor” dos media, da acção cívica de intelectuais e figuras públicas e, sobretudo, dos movimentos sociais.” (PAULINO, id ibidem. pg. 2).
Para além dos média, importa referir ainda o papel crucial dos escritores, nacionais e internacionais, que, através das suas obras literárias, divulguem a nossa identidade cultural pelo mundo. Uma análise feita por José Luís Giovanoni Fornos (sd. pg. 6), à obra de Luís Cardoso, O Ano em que Pigafetta Completou a Circum-navegação, diz o seguinte: “O presente ensaio examina o romance O ano em que Pigafetta completou a circum-navegação (2012), levando em consideração aspectos históricos e de identidade, assinalados a partir do Oriente asiático. A trama composta pelo escritor timorense Luís Cardoso reflete sobre tais elementos, apoiando-se na representação de um grupo de personagens que reproduz a dinâmica política e cultural do Timor Leste, ex-colônia portuguesa.”
Tenho dito a minha intervenção relativamente à língua portuguesa enquanto elemento da identidade cultural do povo timorense e a questão do presente e futuro da língua portuguesa em Timor-Leste está nas nossas mãos – nós os jovens e as crianças – e estou certo de que, com o trabalho duro que temos feito, e que continuaremos a fazer, e o devido apoio e investimento do nosso Estado aos jovens potenciadores e crianças em todo o país, o futuro da Língua Portuguesa será mais consolidado, difundido, evoluído e que trará mais a luz do conhecimento e sabedoria.
Mais uma vez,
O português é uma semente já cultivada neste pedaço da ilha há muitos anos e que, através do seu poder e prestígio, faz crescer o tétum e outros vernáculos do país.
Muito obrigado!
ALGUMAS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
MAIA, Hélio José Santos, CARNEIRO, Maria Helena da Silva, (2018), O desafio do Timor-Leste atual: em busca de uma identidade nacional ligada à língua portuguesa, Remate de Males, Campinas-SP, v. 38.
HULL, Geoffrey, (sd), Timor-Leste: Identidade, Língua e Política Educacional, Instituto Camões,
FORNOS, José Luís Giovanoni, (sd), História e Identidade do Timor Leste através do Romance O Ano em que Pigafetta Completou a Circum-Navegação, de Luís Cardoso, disponível em: http://ebooks.pucrs.br/edipucrs/Ebooks/Web/x-sihl/media/comunicacao-32.pdf
PAULINO, Vicente, (2014), Os média e a afirmação da identidade cultural timorense. In
PAULINO, Vicente (org.), Timor-Leste nos estudos interdisciplinares. Díli: UPDC-PPGP,
UNTL, pp.133-150. Disponível em: http://repositorio.untl.edu.tl/bitstream/123456789/175/1/artigo_de_vicente_paulino_-_os_media.pdf