Introdução
A cultura popular num determinado espaço geográfico, frequentemente afastada dos ocidentais, chamemos-lhe assim, não tanto pelo espaço, mas pela afirmação (mais ou menos subtil) das diferenças e do afastamento (mais ou menos consciente) entre estes e os supostos produtores da mesma, chega-nos como a cultura popular própria e representante desse mesmo local. Esses produtos artesanais, quer os materiais, quer os acontecimentos mais efémeros, sejam as performances musicais, coreográficas, ou de natureza festiva, tão bem introduzidas no imaginário daqueles que os procuram, parecem ter neles investido um carácter estético e simbólico que permite facilmente diferencia-los daqueles produtos “industriais”, banais, utilitários, “ocidentais”, “modernos”. Fala-se aqui em ocidental ou moderno, em oposição aquilo que se considerará artesanal, tradicional, e exótico até, pelo menos em alguns casos, quer sejam produzidos por um artesão em Portugal, ou por um outro no México. Num certo sentido esta dicotomia ocidental/não-ocidental, encontrará paralelos, ou será substituída por uma outra: urbano/rural. Estes conceitos, sem aqui serem profundamente discutidos e pormenorizadamente definidos, levantam toda uma série de problemas e ambiguidades, mas apontam imediatamente para uma oposição ou encontro entre duas concepções, duas “ideias”, que, por questões históricas, mas não só, se posicionam em oposição uma à outra. Talvez a palavra simetria seja mais adequada, em que uma é como que a versão aparentemente simétrica da outra. Como se fossem criadas em função uma da outra. A questão que aqui se levanta, é a natureza deste contacto entre estes dois mundos, se é que eles são realmente divisíveis. A “natureza” da(s) cultura(s) popular(es), como se pretenderá demonstrar e discutir aqui, sob a orientação das ideias de Néstor Garcia Canclini, sobre a problematização de “cultura popular” no geral, e em particular no México, dependem muito mais de contextos sociais, económicos, políticos, históricos e ideológicos, que ajudaram a definir essas culturas em oposição a uma outra, não tanto pela afirmação da identidade dos grupos produtores das mesmas, mas por uma(s) elite(s) numa relação vertical, que procuraria, e continuará a procurar, a incorporação subjugada daquelas prácticas na lógica do mercado capitalista.
Cultura(s)
Uma definição, ou pelo menos um enquadramento teórico do conceito de cultura apresenta-se como uma necessidade imediata, para que se prossiga à problematização do conceito que aqui se lhe seguirá: cultura popular. O próprio conceito em si, é fulcral para uma ciência que, nas palavras de Clifford Geertz (1973), “tem se preocupado cada vez mais em limitar, especificar, enfocar e conter”. Este autor (1973), em A Interpretação das Culturas, refere alguns dos traços que a definição de Clyde Kluckhohn faz salientar: “o modo de vida global de um povo”; “o legado social que o individuo adquire no seu grupo”; “uma forma de pensar, sentir e acreditar”; “um comportamento aprendido”; “um mecanismo para a regulamentação normativa do comportamento”; ou, e talvez esta seja a mais realista, “uma teoria elaborada pelo antropólogo, sobre a forma pela qual um grupo de pessoas se comporta realmente”. A estas propostas o próprio Geertz (1973) chama de “espécie de difusão teórica”, defendendo seguidamente que “o ecletismo é uma auto-frustração, não porque haja somente uma direcção a percorrer com proveito, mas porque há muitas”, e “é necessário escolher”. Entende-se assim, que a (re)construção deste conceito será realizada em relação ao enquadramento teórico e às questões a que a investigação se proporá responder, ao contrário da definição de um conceito “universal” que se demonstre depois, na práctica, desadequado ao terreno e à problematização escolhida. A definição de Geertz (1973), diz o próprio, é “essencialmente semiótica”, “acreditando, como Max Weber, que o homem é um animal agarrado a teias de significados que ele mesmo teceu”, e portanto “assumindo a cultura como sendo essas teias e a sua análise”. Cultura enquanto “teias de significados” recorda a “quase” definição de cultura de Paul Rabinow (2007): cultura é interpretação.
Nesta discussão, talvez um perspectiva histórica sobre os usos deste conceito e seus significados seja importante para compreender a “natureza” do mesmo. Não sendo de todo exclusivo quer da antropologia social em particular, quer das ciências humanas em geral, a compreensão da sua “génese social”, da sua “genealogia”, como refere Denys Cuche (1999), contribuirá para uma melhor e mais informada compreensão dos seus sentidos actuais, em particular nas ciências sociais. Segundo este autor (1999), a palavra “cultura” surge nos finais do século XIII designando uma parcela de terreno cultivada, e assume posteriormente, no século XVI, o sentido de acção, a acção de cultivar. É também em meados deste século que a palavra passa a ser conotada também no sentido figurativo do cultivo de uma qualidade, podendo designar a “cultura” de uma faculdade, no sentido de a desenvolver, mas permanece afastada dos dicionários até ao século XVIII, altura em que se impõe no seu sentido figurado, surgindo no Dicionário da Academia Francesa, na edição de 1718 (Cuche, 1996). No entanto, este conceito de “cultura” surge seguido de um complemento, como se se mostrasse necessário explicitar aquilo que era “cultivado” (Cuche, 1996). Para Denys Cuche (1996), a palavra torna-se parte do vocabulário do Iluminismo, e acaba por se autonomizar em relação aos complementos, passando primeiro, a referir a acção de “formação” ou “cultura”do espírito, e depois a estado: ser-se ou não se ser culto; ter-se ou não se ter “cultura”. No pensamento iluminista o significado de “cultura” é colocado em oposição ao de “natureza”, e é utilizada no singular, reflectindo o seu carácter universalista, como resultado do acumular do conhecimento e dos saberes do Homem (Cuche, 1996). E neste sentido, os seus usos acabam por ser muito semelhantes aos de um outro conceito: o de “civilização” (Cuche, 1996). Mas este é, para Cuche (1999), o uso da palavra em França, ou pelos intelectuais franceses da época.
Na Alemanha, o termo kultur surge no século XVIII, como que uma transposição quase exacta do termo francês, pela influência do iluminismo, por um lado, e por outro, pelo uso da língua francófona pelas classes mais altas da Alemanha (Cuche, 1996). O contexto social e político da Alemanha na segunda metade do século XVIII, levará à apropriação do termo “cultura” por parte da classe burguesa que procurava afirmar-se em oposição à nobreza que, por sua vez, via nos valores franceses uma espécie de guia ou de exemplo a seguir (Cuche, 1996). A burguesia acabaria por usar o termo em oposição ao de “civilização”, por o considerar apenas “aparência brilhante” ou “refinamento superficial” (Cuche, 1996). Desta oposição entre uma classe aristocrata que se prende à cultura francesa, e de uma classe burguesa que procura conquistar terreno e peso na sociedade alemã, passar-se-à de uma afirmação da “cultura” dos segundos em oposição à “civilização” dos primeiros (Cuche, 1996). A Alemanha do século XVIII não se encontrava unificada a nível nacional, e, pode dizer-se, a elite burguesa via-se incumbida da missão de unificar os estados alemães pela afirmação daquilo que era do domínio do espírito burguês, ou seja: procurariam a unificação dos povos germânicos pela afirmação de uma “verdadeira cultura” alemã, característica desta classe, da qual derivaria a essência do espírito alemão (Cuche, 1996). Na viragem do século, na Alemanha, o termo “civilização” passa a conotar a França e as restantes potências ocidentais, e, por seu lado, o termo “cultura” de uso burguês tornar-se-á marca distintiva da nação alemã inteira (Cuche, 1996). A partir desta separação entre o “nós, alemães” e o “vós, os franceses (e o resto da Europa) ”, pela definição pelas elites do que seria a “verdadeira essência cultural” alemã, adivinha-se, olhando em retrospectiva, a afirmação de uma identidade nacional no seu início, e a criação das respectivas políticas, que se começaram a desenvolver no século XIX (Cuche, 1996). O conceito assim apresentado, surge muito mais como uma invenção ou elaboração das elites que, a partir do acima descrito, faculta à burguesia um determinado poder pela definição do que é a “cultura”, quer no sentido civilizacional universalista, quer na configuração de uma ideia de cultura relativista ou etnocêntrica, na definição do que somos “nós” em oposição aos “outros”.
Os capítulos que seguem no livro de Cuche aqui referido, continuam a explorar as diferentes elaborações conceptuais de “cultura”, desde a inclusão desta no pensamento científico, e pelas definições que vai adquirindo ao longo da história das ciências sociais e humanas nas diferentes correntes teóricas que vão surgindo. Um percurso semelhante, se bem que de menor extensão e profundidade, é o de Canclini (1993) no enquadramento teórico que ele apresenta no seu livro. A primeira ideia importante a reter é a de que a definição de cultura a que ele procura chegar passa por dois pontos essenciais: a abordagem aos grupos étnicos e às suas culturas deve ter em conta a continuidade e interacção entre eles, em vez de os considerar grupos ou realidades isoladas, sem o conhecimento da existência de outros, criticando a concepção relativista das culturas, por um lado; e por outro a interpenetração mútua entre os factores culturais do “reino do ideal” e dos factores sociais do “reino do material” (Canclini, 1993). Cultura é então delimitada como a “produção de fenómenos que contribuem, através da representação ou reelaboração simbólica, para a compreensão, reprodução e transformação do sistema social, por outras palavras, todas as prácticas e instituições envolvidas na administração, renovação, e reestruturação de significado” (Canclini, 1993). Segundo o autor (1993), este não procura um “enquadramento teórico para a análise da cultura, mas sim, um conceito que permita explicar as desigualdades e conflitos entre sistemas culturais”. Estes “sistemas culturais” que poderemos encontrar no seu trabalho serão os das “culturas populares/indígenas” e as “culturas urbanas/capitalistas” em interacção. A sua concepção de “cultura” intercepta a de “ideologia”, que segundo o mesmo, para a maioria dos pensadores marxistas apresenta-se como uma distorção da realidade, fruto dos interesses de determinadas classe, nomeadamente as classes dominantes, e por isso continua com o conceito, agora reformulado, enquadrado nessa ideia de desigualdade entre culturas, e da interdependência entre o material e o ideal, assumindo que qualquer prática é simultaneamente simbólica e económica. A cultura enquanto produto, ou os produtos enquanto culturais, devem ser analisados à luz das representações que comportam, e contextualizados na estrutura do mundo da sua produção (Canclini, 1993). Desnaturalizando a ideia de “cultura”, esta poderá ser entendida nas relações de poder que são estabelecidas entre as classes, em que o poder ou o capital cultural das classes mais altas lhes permitirá impor a sua ideologia cultural que educa ou formata os indivíduos para uma estrutura económica e politica arbitrária, e cuja estrutura e mecanismos procuram legitimar essa mesma arbitrariedade e desigualdade, dissimulando-a, omitindo-a, naturalizando-a (Canclini, 1993).
Bibligrafia
Canclini, N. G. (1993). Transforming Modernity: Popular Cultures in Mexico. Austin, Texas: University of Texas Press.
Cuche, D. (1996). A noção de Cultura nas Ciências Sociais. São Paulo: Editora da Universidade do Sagrado Coração.
Geertz, C. (1973). Thick Description: Toward an Interpretive Theory of Culture. In C. Geertz, The Interpretation of Cultures (pp. 3-30). New York: Basic Books.
Leal, J. (2009, Novembro). Etnográfica: Da Arte Popular às Culturas Populares Hibridas. Retrieved Fevereiro 4, 2013, from SciElo Portugal: http://www.scielo.oces.mctes.pt
Novelo, V. (1976). Artesanías y Captalismo en México. Tlalpan: S.E.P.
Rabinow, P. (2007). Fieldwork and Friendship in Morocco. In A. C. Robben, Ethnographic Fieldwork: An Anthropological Reader (pp. 447-454). Oxford: Blackwell Publishing Ltd.