Cultura(s) Populare(s)
A “cultura popular”, pode dizer-se, é definida em relação a uma “cultura não-popular”, ou por outras palavras, a cultura popular, das classes mais baixas, do rural ou dos “indígenas”, é definida em oposição à “cultura” das elites e pelas mesmas. Na definição de João Leal (2009), o popular é “o produto do encontro de duas culturas: a cultura que lá estava e não sabia que era popular e a cultura de quem chega e a nomeia popular”. Para Canclini (1993) a definição passa por considerar a “cultura popular” no plural (culturas populares) procurando assim fugir a uma consideração universalista do conceito, assumindo as culturas populares como o produto de “um processo de apropriação desigual de propriedade económica e cultural de uma nação ou de um grupo étnico por alguns dos seus sectores subordinados, e através de um simbólico e real entendimento, reprodução, e transformação das condições de vida e de trabalho gerais e particulares”. Poderá então afirmar-se que as culturas populares são formadas a partir da apropriação, por parte da classe média por exemplo, de uma determinada cultura, numa desigual relação de poder, cujo processo transforma e reproduz as condições de vida favoráveis à manutenção destas desigualdades, a partir de cima, tanto no seu carácter simbólico como nas suas prácticas? E Como decorre este processo de apropriação? Quais as prácticas que concretizam a transformação e reprodução dessas condições de vida?
"o popular é “o produto do encontro de duas culturas: a cultura que lá estava e não sabia que era popular e a cultura de quem chega e a nomeia popular”.
Para o autor de Culturas Populares en el Capitalismo, título da versão original de Canclini (1993), as culturas populares devem ser entendidas em dois sistemas coexistentes, sendo um deles o capitalista cujas prácticas visam organizar a vida de todos os seus membros, e um outro, o das “prácticas e pensamentos que os sectores populares criam para si mesmos no sentido de conceptualizarem e expressarem o seu papel subordinado nas esferas de produção, circulação, e consumo, impostas” (Canclini, 1993). Somam-se estas duas novas dimensões à ideia de culturas populares: para alem da desigual apropriação de capital, a conflitualidade dessa interacção resolvida pela organização capitalista, e o próprio entendimento e expressão do papel subordinado dos populares por eles mesmos. A sua insistência na ideia de subordinação dessas classes ao sistema capitalista é clara ao longo de toda a obra. Parece às por vezes querer demonstrar uma certa agenda nesse processo que diz ser imposto pelos ideais capitalistas, como uma continuidade até de um passado colonial, em que determinados sectores populares ou rurais são mantidos na periferia em relação a um centro urbano, e o próprio México, podemos dizê-lo, concebido como uma forma de periferia do “ocidente”. Num certo sentido talvez como porta de entrada nesse mundo “primitivo” romantizado pelos europeus (Canclini, 1993). Parecendo esta visão um pouco exagerada é certo que a inclusão (selectiva, diga-se de passagem) de todo o capital de uma nação e respectivas comunidades nos mercados nacionais, e os mesmos na interacção económica global, é de esperar que desiguais relações de poder resultem numa subordinação em “cascata” dos diferentes sectores (Canclini, 1993).
"As culturas populares devem ser entendidas em dois sistemas coexistentes, sendo um deles o capitalista cujas prácticas visam organizar a vida de todos os seus membros, e um outro, o das “prácticas e pensamentos que os sectores populares criam para si mesmos no sentido de conceptualizarem e expressarem o seu papel subordinado nas esferas de produção, circulação, e consumo, impostas”
García Canclini (1993) explica como os discursos políticos no México podem ser eles próprio demonstrativos da construção/reafirmação de uma ideologia que passa por considerar a cultura popular nacional como o refúgio e a fonte de onde emanam os verdadeiros valores nacionais, voltando a atenção para esses sectores e possibilitando a selecção, apropriação, e reformulação de determinados aspectos dos mesmos. Também para Victoria Novelo (1976), a acção das políticas relativas à identidade nacional passam por “descobrir primeiro e dizer depois o que é realmente válido da cultura indígena, que por sua vez deverá fundir-se com o património de outras etnias, para que se converta na verdadeira cultura nacional”. A “tradição” torna-se património nacional da qual os cidadãos devem participar mediante uma determinada lógica de interacção e trocas: uns como produtores (num sentido mais alargado) dessa “tradição”, outros como consumidores da mesma (Canclini, 1993).
Continuando no campo das políticas, estas vão além do simples discurso, pondo em prática medidas ou projectos que propiciam uma certa continuidade na realização destas “tradições”, e que distribuem, ou possibilitam o contacto, entre essas e as populações urbanas (Cuche, 1996). No México, segundo este autor (1993), existiam na altura seis milhões de artesãos, isto num contexto de industrialização crescente decorrido desde os anos quarente do século XX. A questão da industrialização é em certa medida uma das causas de certas políticas de promoção do artesanato e das culturas populares no México. À medida que a dimensão da indústria se desenvolveu e foi necessitando de aumentar a sua força de trabalho, também cresceu a procura por parte das populações rurais por postos de trabalho nas mesmas (Canclini, 1993). A fuga do campo para a cidade, e como consequência, o abandono da agricultura, dá-se por parte daqueles que a praticam para sua própria subsistência e para a venda de excedentes, alternadamente com outras fontes de rendimento (confecção de produtos alimentares, música, tecelagem, olaria, etc.) (Novelo, 1976). Outros rendimentos resultariam de trabalho sazonal, que passaria quer pelas migrações no território nacional, quer pela emigração (Canclini, 1993). Como a própria indústria não tinha capacidade para a assimilação total do número de migrantes, gerou-se uma situação de desemprego que acabaria por chamar a atenção da classe política (Canclini, 1993). Para García Canclini (1993), as politicas de promoção das culturas populares tem como principio a fixação dos indivíduos rurais nesse espaço, transformando a sua organização e produção. Dezenas ou centenas de indivíduos das classes populares a vaguearam as ruas da cidade, desempregados, e provavelmente em condições de vida bastante precárias poderão não constituir a imagem de urbanismo mais apelativa para determinadas classes. Tal situação agravaria as já por si deficientes condições sanitárias, de habitação, e de educação dos espaços urbanos (Canclini, 1993).
"os discursos políticos no México podem ser eles próprio demonstrativos da construção/reafirmação de uma ideologia que passa por considerar a cultura popular nacional como o refúgio e a fonte de onde emanam os verdadeiros valores nacionais, voltando a atenção para esses sectores e possibilitando a selecção, apropriação, e reformulação de determinados aspectos dos mesmos."
Promovendo uma ideia de “cultura popular” única e particular de um determinado espaço geográfico, promove-se a fixação dos produtores dessa cultura ao espaço considerado como originário da mesma (Canclini, 1993). Esta fixação garante ainda que, quando os indivíduos não produzam artesanato, ou os familiares daqueles que o produzem, ocupem postos de trabalho na agricultura, quer como jornaleiros, quer nos trabalhos agrícolas de natureza sazonal (Novelo, 1976). Ou seja, tem lugar uma ideia do que é popular e tradicional, que criará, por um lado estruturas de produção desses produtos para onde será remetida uma certa força de trabalho incapaz de ser absorvida pela industrialização, e por outro uma procura dos mesmos que é gerada pela sua divulgação carregada de um simbolismo próprio. A produção desses objectos e eventos, animada pelas políticas de incentivo e promoção ou publicidade, constituir-se-á como uma das alternativas ou meios adicionais de subsistência dessas populações, sem que no entanto esse rendimento se torne suficientemente significativo para que reequilibre uma desigual distribuição de capital (Canclini, 1993).
Como resultado dessas políticas de (re)consideração da “cultura popular”, seja por acção directa do Estado, pelas instituições apoiadas pelo governo, ou ainda por instituições privadas, a reorganização das condições de vida e produção segundo uma lógica compatível com as exigências do capitalismo, implicou na prática a fractura das sociedades “tradicionais” (Canclini, 1993). No contexto mais tradicional de elaboração destes “produtos culturais” – e entenda-se aqui “tradicional” no sentido daquilo que seria a realidade de produção antes do processo de reorganização - a família operaria como o espaço de produção das peças artesanais, incluídas numa lógica voltada para o carácter simbólico e material que a comunidade investia neles (Canclini, 1993). Por sua vez, na reorganização capitalista a elaboração e comercialização destes objectos é fracturada e distribuída por diferentes instituições, e vê nela investidos novos significados e valor comercial (Canclini, 1993). A produção olaria, por exemplo, que começa no seio familiar ou em workshops, é depois transportada para um outro estágio da produção em que lhe são aplicados os elementos decorativos, e só depois vendida nos mercados, quer daqueles próximos das comunidades produtoras, quer nos mercados urbanos ou internacionais (Canclini, 1993). A estes três “estágios”, se assim os considerarmos, estão atribuídos determinados papéis para os indivíduos que operam dentro deles (Novelo, 1976). Não se resumindo aos produtores concretamente, a circulação destas mercadorias dependem de uma série de estruturas que suportem a comercialização local, nacional e internacional, dependendo de actores específico para cada uma destas escalas comerciais.
"tem lugar uma ideia do que é popular e tradicional, que criará, por um lado estruturas de produção desses produtos para onde será remetida uma certa força de trabalho incapaz de ser absorvida pela industrialização, e por outro uma procura dos mesmos que é gerada pela sua divulgação carregada de um simbolismo próprio."
Outro rasgo estranho às comunidades ditas tradicionais é a assinatura própria e individual por parte daqueles que das peças produzidas por determinados artistas/artesãos. Canclini (1993) refere na sua obra que, em geral para os artesãos, a assinatura das peças não tem para os mesmos a conotação ou o valor simbólico de tal marca individual e distintiva nas peças. Com a introdução destas práticas, compartimentam-se as diferentes fazes da produção, e individualizam-se (alguns) dos artesãos, fracturando o processo de produção um pouco ao estilo de uma “linha de montagem” e talvez com nuances “artísticas” que, para Canclini (1993), deriva da reconfiguração destas prácticas segundo parâmetros que permitam a sua inclusão no mercado capitalista, pela acção directa ou indirecta de politicas que possibilitam e/ou incitam à apropriação deste capital cultural.
Bibliografia:
Canclini, N. G. (1993). Transforming Modernity: Popular Cultures in Mexico. Austin, Texas: University of Texas Press.
Cuche, D. (1996). A noção de Cultura nas Ciências Sociais. São Paulo: Editora da Universidade do Sagrado Coração.
Geertz, C. (1973). Thick Description: Toward an Interpretive Theory of Culture. In C. Geertz, The Interpretation of Cultures (pp. 3-30). New York: Basic Books.
Leal, J. (2009, Novembro). Etnográfica: Da Arte Popular às Culturas Populares Hibridas. Retrieved Fevereiro 4, 2013, from SciElo Portugal: http://www.scielo.oces.mctes.pt
Novelo, V. (1976). Artesanías y Captalismo en México. Tlalpan: S.E.P.
Rabinow, P. (2007). Fieldwork and Friendship in Morocco. In A. C. Robben, Ethnographic Fieldwork: An Anthropological Reader (pp. 447-454). Oxford: Blackwell Publishing Ltd.