A indústria da cultura (popular)
Para Victoria Novelo (1976), o artesanato estaria na moda no país, facto que se reflectia “não só na publicidade que recebiam nos meios massivos de comunicação, na grande quantidade de tendas, galerias de arte, mercados de curiosidades, exposições ambulantes e bazares, senão também no elevado número de instituições oficiais e privadas que fomentavam a produção de artesanato”. Este primeiro parágrafo da sua obra (Novelo, 1976) é indicador de um aparatus cultural[ Canclini, 1993.] responsável por administrar, renovar e transferir capital cultural. Não se reflecte nele apenas a iniciativa do país na atenção que dá ao “popular e tradicional”, mas ainda os meios de comunicação mais abrangentes (de massas), e o próprio espaço de circulação dos indivíduos que são assim bombardeados com esta ideia do popular, na qual é investido um novo valor simbólico que satisfaça/incite à procura dos mesmos por parte daqueles que se interessarem em os consumir. A indústria do turismo (massificado) é aqui essencial, como Novelo (1976) e Canclini (1993) vão referindo nas suas obras, pois acodem aos espaços de aquisição destas peças milhares de turistas, que procuram viver o espaço, as fiestas, conhecer o México “tradicional”, e levar de volta para casa toda uma panóplia de objectos produzidos no já explorado contexto de elaboração de artesanato. Se no México as culturas populares[ Canclini, 1993.] resultam de um processo de apropriação do capital cultural das comunidades rurais e/ou indígenas por parte de sectores subordinados, dentro de um mercado capitalista e (cada vez mais) global, serão esses sectores a origem dos turistas que se deslocam ao México, ao espaço rural, para adquirirem bens e memórias. Os produtos de olaria, cerâmica, madeira, “bonecas de trapos”, os registos audiovisuais de cada turista, constituem-se como bens que o turista poderá adquirir, e que pela reelaboração simbólica que esses objectos e eventos sofrem, passam eles próprios a ícones de um determinado rasgo identitário por parte de quem os adquire. Todo o aparatus cultural constrói assim uma ideia de “popular” ou “tradicional” em concordância com os valores que determinados sectores da sociedade urbana/ocidental procuram para se afirmarem no meio social com uma determinada identidade.
Realizada a discussão no campo das políticas específicas do espaço Mexicano, torna-se pertinente uma abordagem (breve) num contexto mais global de acção da indústria da cultura[ Adorno, 2003]. Este conceito caro a Adorno e Horkheimer, teve na sua génese o termo cultura de massas (Adorno, 2003). Segundo o mesmo autor, abandonar a ideia deste conceito era necessário para que se excluísse qualquer hipótese de pensar que essa cultura tivesse origem espontânea nas massas que a consumiam, como se fosse uma “forma contemporânea de arte/cultura popular” (Adorno, 2003). Esta consideração em relação ao conceito alia-se facilmente à crítica que é realizada à “naturalização” das culturas enquanto emanações da capacidade criativa/artística/expressiva de uma determinada comunidade “tradicional”. Para Adorno (2003), a “indústria da cultura constitui-se na integração propositada dos seus consumidores a partir de cima”, ou por outras palavras, a indústria da cultura elaborará estratégias e práticas que permitiram a subordinação de classes mais desfavorecidas a sistema de bens e de valores definidos pelas classes elitistas com poder para tal. O próprio carácter económico de cada bem cultural elaborado pela mesma é omisso ou subvalorizado em relação a um “consenso geral e acrítico” do carácter simbólico desses produtos, “fazendo-se publicidade para o mundo de tal modo que cada produto da indústria da cultura é um anúncio publicitário em si mesmo” (Adorno, 2003). Mais ainda, cada produto ou objecto pode assumir uma manifestação material e simbólica única e particular, criando a ilusão da possibilidade de individualização e diferenciação de cada um deles, como se existisse um para as exigências ou desejos específicos de cada indivíduo (Adorno, 2003). Na realidade é investido nos bens culturais populares um determinado carácter simbólico construído, primeiro por questões de identidade nacional, e depois, como foi discutido, por questões políticas de orientação económica, para servir os propósitos de uma ideologia das classes que promovem e estruturam a comercialização desses bens. A ilusão da possibilidade de um consumo diversificado é assente num certo “cerco às massas” que impede qualquer desvio, como que numa espécie de “estandardização das diferenças” (Adorno, 2003). Se a procura da cultura popular no México se poderá dar, em certa medida, por parte de uma “elite” de turistas que poderão procurar no tradicional e no exótico uma alternativa às suas condições de vida urbanas e ocidentais, numa fuga à cidade, ao capitalismo, à industria, a uma sociedade mecânica dominada pelas máquinas, a tecnologia e o materialismo, não será menos verdade que os discursos em volta de uma realidade alternativa passam pela construção de um imaginário ilusório elaborado em oposição à ideia de “civilização” mas incluído nas mesmas formas de organização económica que subjugam classes subordinadas a uma ideologia que tem como fim a exploração dos recursos e da força de trabalho. Para terminar, e recorrendo a uma ideia que esteve presente na promoção do turismo português, “Vá para fora, cá dentro”, poderemos dizer que se vai para fora do sistema capitalista e dos valores ocidentais, sem nunca se poder, nem querer talvez, afastar deles.
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As Culturas, o Popular, e as Desigualdades no Capitalismo: Culturas Populares no contexto Mexicano (pt1)
As Culturas, o Popular, e as Desigualdades no Capitalismo: Culturas Populares no contexto Mexicano (pt2)
Bibligrafia
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Canclini, N. G. (1993). Transforming Modernity: Popular Cultures in Mexico. Austin, Texas: University of Texas Press.
Cuche, D. (1996). A noção de Cultura nas Ciências Sociais. São Paulo: Editora da Universidade do Sagrado Coração.
Geertz, C. (1973). Thick Description: Toward an Interpretive Theory of Culture. In C. Geertz, The Interpretation of Cultures (pp. 3-30). New York: Basic Books.
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Novelo, V. (1976). Artesanías y Captalismo en México. Tlalpan: S.E.P.
Rabinow, P. (2007). Fieldwork and Friendship in Morocco. In A. C. Robben, Ethnographic Fieldwork: An Anthropological Reader (pp. 447-454). Oxford: Blackwell Publishing Ltd.