Em jeito de conclusão desta trilogia de posts sobre as Timbila Chope, não pode deixar de ser referida a proclamação da Timbila, enquanto género musical, como Património Imaterial da Humanidade, pela UNESCO, em 2005 (UNESCO, 2005). Esta proclamação chega numa altura (quiçá um pouco tarde) em que as orquestras Chope parecem ter perdido a vitalidade sobre a qual David J. Webster e Margot Dias escreviam, naquilo a que Ilídio Rocha (1986) chama de “morte dos ngodo Chope”. Segundo este autor, o efeito que as políticas coloniais tiveram em Moçambique, sobretudo na segunda metade do século XX, acabaram com ambas as razões de ser das orquestras: a função social, e o suporte material. Relativamente às letras das canções, os comentários de cariz social chope, foram substituídos por “cânticos de louvor” a Salazar, ao Governador-Geral, a Américo Tomaz ou ao Cardeal Cerejeira, todos eles personagens do poder português, que nenhum sentido faziam no contexto chope, na função que era desempenhada pelas canções orquestrais (Rocha, 1986). No que toca à questão material, a árvore mwenje foi simplesmente devastada pela indústria madeireira, levando à impossibilidade de se criarem ou repararem novas timbila, pela falta da madeira desta árvore, considerada como a única que consegue um timbre adequado (Rocha, 1986). Assim, o colonialismo português acabou com a matéria-prima para os instrumentos, e impediu uma das mais importantes funções dos poemas cantados do povo Chope. Esta dupla intervenção, acabou por desmotivar o canto, e por acabar com a matéria-prima própria à manutenção dos instrumentos, desmotivando a tradição e o ensino aos mais novos (Rocha, 1986).
Actualmente, segundo a UNESCO (2005), o incentivo à música das timbila está a motivar jovens a aprender, não só do sexo masculino, numa tentativa de ver vivo e reconhecido o valor da música deste povo.
Ver também:
As "marimbas" Chope de Moçambique (pt. 1): passado pré-colonial e contextualização sociocultural
https://busy.org/@martusamak/as-marimbas-chope-de-mocambique-pt-2-da-mbila-as-ngodo
Bibliografia
Dias, M. (1986). Instrumentos Musicais de Moçambique. Lisboa: Centro de Antropologia Cultural e Social. Instituto de Investigação Científica Tropical.
Ferreira, A. R. (1975). Secção II: Grupo Chope. In A. R. Ferreira, Povos de Moçambique: Históra e Cultura. Porto: Edições Afrontamento.
Ferreira, A. R. (1986). Grupos étnicos e História pré-Colonial de Moçambique. In I. d. Universidade de Coimbra, Moçambique: aspectos da cultura material. Coimbra: Instituto de Antropologia, Universidade de Coimbra.
Rocha, Ilídio. (1986). A morte dos ngodo Chope: Uma dramática forma de resistênciua cultural. In I. d. Universidade de Coimbra, Moçambique: aspectos da cultura material. Coimbra: Instituto de Antropologia, Universidade de Coimbra.
UNESCO. (2005). Obtido em 5 de Junho de 2012, de Third Proclamation of Masterpieces of Oral and Intangible Heritage of Humanity: http://www.unesco.org/culture/intangible-heritage/27afr_uk.htm
Webster, D. J. (2009). A sociedade Chope: indivíduo e aliança no Sul de Moçambique: 1969-1976. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais.