Boa noite!
Hoje para descansar a mente, e retornar a uma tag proposta pelo , vou trazer minha interpretação e trechos de um livro que considero muito interessante e atual.
Foto arquivo pessoal
O livro chama-se Elogio da Loucura, escrito por Erasmo de Rotterdam em 1509, que tem uma importante influência na civilização ocidental, onde suas idéias também serviram de inspiração à reforma protestante e outras transformações políticas da época.
Erasmo de Rotterdam foi um filósofo humanista holandês, crítico do ensino Escolástico, e da hipocrisia humana, em um época que o que marcava o final da Idade Média e início da era renascentista e Idade moderna, o que levaram a uma profunda mudança nos paradigmas políticos, econômicos, culturais e sociais.
Em Elogio a Loucura, Erasmo nos mostra o quanto a loucura está mais próximo de nós do que acreditamos, faz parte do mundo dos homens, seria a forma de ver o mundo mais suportável ?
Em uma crítica muito inteligente, a própria Loucura faz sua narrativa.
“Certamente, não dou a mínima importância àqueles sabichões que falam sem parar da insanidade e da impertinência dos que se louvam a si mesmos. Seja loucura quanto quiserem; terão de reconhecer a sua coerência. Pois o que há de mais coerente do que a Loucura que alardeia sua própria glória e canta seus próprios louvores? Quem melhor do que eu poderia descrever-me? A menos que alguém me conheça mais do que eu mesma.”
E não só narra, quer o devido reconhecimento.
”Ora, devo dizer que me admira a ingratidão dos mortais ou, como dizem, sua indiferença. Todos me cortejam e reconhecem de bom grado os meus favores, porém em muitos séculos, não apareceu ninguém que desse voz à gratidão com discurso de louvor a Loucura... “
E o reconhecimento não é o bastante, se ela esteve sempre presente, e se diz servidora dos homens, tem de haver mais que um reconhecimento.
”Agora, para que não pareça sem fundamento a minha pretensão ao título de deusa, preparai bem as orelhas e escutai quanta valia eu sou aos deuses e aos homens, até onde se estende o meu poder”.
E traz sua presença desde o politeísmo do olimpo, ao monoteísmo cristão. Nas relações humanas, os sentimentos, no saber, nos costumes, no diferente.
A Loucura reivindica a atenção que sempre lhe foi negada, mesmo estando sempre presente, e em todos os lugares, desde a esfera divina a humana, questiona de ser vista pejorativamente.
Faz uma dura crítica ao Clero, instituição forte e muito influente na época, os quais transmissores dos valores cristãos, da humildade, caridade e fraternidade, esqueceram-se dos valores, e também não lhe deram nenhum crédito.
“Fazem bem àqueles que só pensam na boa comida; quanto ao cuidado do rebanho, ou o remetem a Cristo ou entregam àqueles a que chamam frades ou aos seus vigários. Nem se recordam do significado de bispos: bispo quer dizer esforço, preocupação, solicitude, virtudes que se valem para subtrair dinheiro: para isso têm que ter olhos bem abertos!”
Ao teólogo:
”... Todos reconhecem aos teólogos o direito de manipular o céu, ou seja, as Sagradas Escrituras, puxando-as para cá e para lá como um elástico…”
Não sobre ninguém a crítica da Loucura, os poetas, os filósofos, os cientistas, a política, os juristas, os eruditos.
E finaliza com a Loucura se autodenominando mulher, pela petulância e prolixidade, uma crítica incrível, em uma época de extremo machismo.
”Não esqueçais que quem fala é a Loucura, e que sou mulher. Lembrai-vos porém do provérbio grego: Muitas vezes até um homem louco fala sensatamente”.
O livro teve grande impacto na literatura e tem para alguns até hoje, ainda que vejamos a Loucura presente independente da época, na vaidade dos humanos, em relação ao Poder, a Sabedoria, as Riquezas.
A loucura humana estigmatizada no diferente, no sofrimento mental, nos que fogem ao contexto que se pretende do social, é indiferente no nosso dia a dia, e camuflada pela loucura dos que perpetuam o sofrimento humano por benefício próprio.
Ficam aos loucos que se destinam a ser entendidos, aos que se destinam entendê-los, e aos que se satisfazem por pensar ou querer entender.
Que a loucura se regozije da nossa ignorância, e que nossa ignorância nos mantenha felizes em nossas próprias realidades, afinal, de que me serve qualquer sabedoria se tudo é proporcionado por Deus e agora também a genética?
E não para por aí, creem-se na ideologia, no modelo de governo, no saber, no modelo econômico, nos políticos, nos valores..
A crença não dá espaço ao questionamento, que acredito ser a principal mensagem de Erasmo, questionar o próprio questionamento, assim veremos até que ponto são delimitados o indivíduo e o todo, sairemos da anestesia afetiva, e assim nos veremos em humanidade, na loucura do ser que nada sabe, e que sente a dor de nada saber.
Muitos escolhem viver a loucura do já sabido, posto que já sabem tudo o que deveria, e deixar a crença o que cabe a discussão humana.
Outros na loucura do saber que nunca será sabido em seu pleno saber, elaborando a loucura, elogiando-a, mesmo em vão no nosso tempo., assim como foi em tempos anteriores.
E lembro que Erasmo de Rotterdam, pelas descrições dos historiadores era cristão e propôs a filosofia de Cristo, como um cristianismo que chamava de primitivo, o qual consistia no retorno a ética formulada e apresentada por Cristo nos evangelhos, assim como o alto clero, ele criticava também os excessos do protestantismo, mesmo o protestantismo utilizando sua obra como influência.
Obrigado pela leitura. Todos o trechos citados são do livro discutido.
”Adeus, então! Aplaudi, bebei, vivei, ilustres iniciados da Loucura!”