– É melhor ficar quieto, você sofreu um acidente e bateu a cabeça, por enquanto é melhor não fazer movimentos bruscos.
Realmente sentia seu corpo todo dolorido, e disse:
– Quem é você? Onde estou? O que aconteceu?
– Você foi atropelado e não lhe prestaram socorro... – Continuou a voz com serenidade, intercalada por longas pausas – Teve sorte... O barulho me despertou e resolvi te ajudar... Caso contrário você passaria a madrugada ferido e desmaiado lá fora... Agora se encontra em minha casa e estou cuidando para que você melhore... Não se preocupe. Não lhe farei mal... Descanse.
Apesar de assustado por se encontrar em um local estranho e escuro, ouvindo a voz de um desconhecido, Marcus não tinha saída, todo o seu corpo doía, e só lhe restava esperar. Conforme a luz da manhã entrava no quarto, podia perceber com mais nitidez os contornos do lugar; achava-se em uma cabana humilde com telhado construído com palhas e lona, e paredes de barro. Fez um último esforço para se levantar, mas não foi possível, foi rendido pelo cansaço e adormeceu.
Teve um sono conturbado até acordar novamente gritando devido ao mesmo pesadelo que o atormentava e perseguia implacavelmente. Também sentia muita dor. O velho deu-lhe uma bebida quente de gosto amargo para beber em uma cuia:
– Beba isso, e vai melhorar!
A dor era tão intensa que resolveu obedecer e confiar no estranho, que em seguida colocou uma grossa camada de folhas sobre o abdome de Marcus que em poucos minutos adormeceu novamente. Desta vez teve um sono profundo, tranquilo e reconfortante.
Ao despertar novamente sentia-se melhor. Fez esforço para se levantar e olhou em volta. Esfregou os olhos para se acostumar com a claridade que vinha de uma porta aberta. Eram os raios de sol que batiam em seu rosto. A casa do velho ficava no alto de um morro e podia-se ver o sol se pondo no horizonte ao longe. O brilho alaranjado ofuscava sua visão. Havia dormido o dia inteiro. Vagarosamente se ergueu e andou cambaleante até a porta, seu salvador estava sentado no quintal sobre uma pedra achatada e olhava para as montanhas ao longe, seu corpo parecia absolutamente imóvel, como se fosse uma estátua.
Marcus se aproximou com dificuldade e balbuciou:
– Obrigado Sr...
– Emiliano Souza ao seu dispor – retrucou o ancião que continuava como que paralisado e só movia os lábios para falar... – Pode-se dizer que você teve sorte, mas a explicação correta é que você foi guiado até mim pelo poder do espírito.
Sem entender o que o estranho estava querendo dizer, o jovem estava agitado, impaciente e conturbado.
– Olha, muito obrigado mesmo por me ajudar, mas que história é essa de espírito? Agora preciso ir para casa, minha mãe deve estar preocupada, você teria um telefone, acho que perdi meu celular.
– Está sobre a mesa, mas parece estar quebrado ou desmontado, de qualquer modo seria inútil, aqui devido a esta enorme pedreira, o sinal não funciona.
Marcus olhou pra cima e reparou que havia uma enorme pedra logo acima da casa, que era contornada por uma pequena trilha na encosta íngreme, pelo visto tinha sido carregado para baixo pelo velho enquanto estava desmaiado.
– Preciso ir embora...
– Pode ir, quando precisar e quiser entender o que tentei lhe dizer sobre o espírito, você pode voltar e conversamos. Ande devagar... Não faça movimentos bruscos, você bateu a cabeça com força, mas creio que não foi grave.
– Desculpe, mas tenho mesmo que ir, mais uma vez obrigado...
– Não me agradeça, agradeça ao Espírito, parece que ele reserva um destino extraordinário para você...
– Desculpe, mas não acredito nestas coisas...
– Vai ficar pedindo desculpas a cada minuto? Não há necessidade disto aqui... E não importa se acredita ou não, se não acredita é até melhor assim, o Espírito age independente de sua fé.
Neste momento o jovem percebeu o peso de algo em seu abdome, apalpou com as mãos e percebeu que eram folhas que estavam amarradas com um pano em volta de sua barriga.
– O que é isso...?
– Ah, percebi que você estava tendo pesadelos, por isso amarrei estas folhas especiais ao redor da sua barriga, isto vai te proteger durante a noite, guarde elas e sempre as amarre deste modo, antes de dormir, vai se sentir melhor.
– Que coisa estranha... tem certeza que isto funciona?
– Você ainda não está pronto para compreender, um dia talvez você volte aqui quando for o momento certo. Pode ir agora... – e deu um empurrãozinho amigável em seu ombro. Marcus queria se voltar e perguntar sobre as folhas, mas o tapinha lhe deixou uma sensação desconfortável que lhe obrigava a andar sem olhar para trás e ir embora.
Continua...
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